12 de maio de 2026

Depressão e distúrbios matam mais policiais que confrontos

Um disparo feito a próprio punho em direção à cabeça e mais um policial perde a vida em Mato Grosso do Sul. O caso, que ocorreu na segunda-feira (1º), em Campo Grande, soma-se a outros quatro registrados do início do ano até agora, contra três em todo o ano passado, conforme informações extraoficiais. Os dados revelam que a sobrecarga de trabalho e a falta de assistência psicossocial têm derrotado policiais do Estado, perante a batalha da corporação contra transtornos mentais. Os distúrbios matam mais que confrontos durante o serviço.

Conforme a psicóloga Alicia Izidre do Couto, que trata dos militares pela Associação e Centro Social dos Policiais Militares e Bombeiros Militares de Mato Grosso do Sul (ACS/MS), estresse, desestímulo, jornada excessiva de trabalho e perseguição são as principais queixas entre os poucos agentes da corporação que decidem procurar ajuda antes de chegar ao estado de colocar um ponto final à própria existência. “O  policial militar é treinado a se guardar, se proteger e, sendo assim, não falar muito sobre si. Então, são poucos os que procuram ajuda. Mas o que a gente observa é uma sobrecarga de trabalho, de plantões, que, somada à falta de assistência, tem levados muitos à depressão e até à morte”, afirma a psicóloga.

Por mês, Alicia atende cerca  de 15 militares numa sala cedida pela Associação dos Policiais para tratamento gratuito dos associados. Alguns já fazem acompanhamento há seis meses, mas são exceção. “Muitas das vezes, o policial se encontra sem ninguém, sem apoio da sociedade ou institucional, e, quando perde a família, ele se vê sem saída. Os motivos para que chegue a esse ponto nem sempre são profissionais, mas estes são o gatilho. O que a gente tem visto é essa falta de melhor remuneração, a desvalorização, e isso acaba acumulando uma série de coisas que levam à depressão e até a pensamentos suicidas”, revela.

“FRAQUEZA”

A sombra do suicídio é mais perigosa que os confrontos entre polícia e bandidos, que neste ano não fizeram nenhuma vítima entre os profissionais do Estado.

Apesar da ameaça, muitos nem sequer procuram tratamento por vergonha de serem vistos como “fracos” entre os colegas. “Eles dizem: ‘Como vou ficar visado dentro da tropa? Como um fraco?’. Acredito que, se houvesse uma conscientização de que a saúde mental é, muitas vezes, mais importante que a saúde física, isso seria diferente”, avalia.

Para a psicóloga, o Comando-Geral da PM deveria ter uma ação mais efetiva quanto à assistência oferecida aos militares. “O comando deveria olhar mais para a instituição, colocando-se pela tropa. O ser humano tem dever, mas também tem direito a ter qualidade de vida, descanso adequado e consciência de que se cuidar é importante. O próprio comando deveria abrir esse espaço”, considera.

Ontem, o deputado estadual Coronel David (PSL) também reforçou que a situação merece maior atenção por parte do poder público. O parlamentar fez uma indicação ao governo do Estado, pedindo um Centro Biopsicossocial para atender todos os servidores da Segurança Pública. “O referido centro atuaria atendendo os servidores mencionados e, eventualmente, suas famílias, quando o quadro, clínico e/ou psicológico, assim indicasse, amparando os servidores de tão importante setor do Estado, a Segurança Pública, que estão se  desequilibrando e cometendo suicídios com frequência descabida”, ressalta.

INERTE

Procurado pelo Correio do Estado desde segunda-feira, o Comando-Geral da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul se limitou a informar que emitiria uma nota sobre a questão nesta quarta-feira.

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