10 de maio de 2026

A guerra dos Trad: núcleo tradicional se rompe e expõe o conflito entre irmãos

A família reflete o Brasil dividido: Fábio vai à esquerda; Nelsinho se une aos apoiadores de Bolsonaro

A família Trad, por décadas unida em torno do nome e do capital político de Nelson Trad — o trabalhista cassado, preso e perseguido pela ditadura militar — chegou ao ponto de ruptura. O que parecia improvável nos anos de hegemonia eleitoral em Campo Grande, quando os três irmãos caminhavam lado a lado, agora se consolidou com a decisão de Fábio Trad de se filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT), em confronto com o irmão mais velho, Nelsinho Trad, hoje senador pelo Partido Social Democrático (PSD) e aliado do grupo que abraçou o bolsonarismo em Mato Grosso do Sul.

A disputa, há tempos anunciada, é política e simboliza, no microcosmo familiar, a fratura que separa “dois Brasis” radicalmente polarizados desde 2018 entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O que se vê na família Trad, mesmo que os três irmãos jurem que as divergências não respingarão no campo familiar, não é apenas um drama da política. É o espelho de um Brasil dividido, onde o extremismo colocou irmãos contra irmãos, filhos contra pais, famílias inteiras em guerra por ideologia. Filhos da elite política sul-mato-grossense e um dos núcleos familiares políticos mais antigos na região, eles também não resistiram.

Assim que o irmão selou seu novo caminho, num encontro que reuniu a cúpula estadual do PT e a ministra das Relações Institucionais do governo federal, Gleisi Hoffmann (PT), no Palácio do Planalto, Nelsinho Trad (PSD) reagiu com dureza numa entrevista ao Campo Grande News: “Ele [Fábio] está num campo totalmente oposto ao que foi forjado. Ele existe na política devido ao campo centro-conservador que o elegeu. A gente sempre disputou eleição contra o PT. Então ele está virando as costas a tudo isso. É como uma dupla que se aparta. Ele é meu irmão, não vai deixar de ser, mas é a opção que tomou.”

Na direção contrária, o vereador Marquinhos Trad (PDT), ex-prefeito de Campo Grande, saiu em defesa do irmão: “O Fábio não mudou em nada. É o mesmo discurso que fazia quando presidia a OAB em 2007: defesa da democracia, combate ao fascismo e justiça social. Quem mudou foram os que agora viraram extremistas de direita. Nelsinho errou. O Fábio nunca foi votado pela extrema direita. Sempre teve base no campo de centro-esquerda, intelectuais, profissionais liberais e lideranças sociais.”.

Fábio Trad também rebate o irmão, afirmando que “o momento político exige posições claras” e alfineta: “O Nelson optou por ficar ao lado dos bolsonaristas, de Tereza Cristina (PP-MS) e da direita. Eu continuo onde sempre estive. Eu nunca tive voto de fascista, que sempre votou em Tereza Cristina. Quero distância do fascismo. Isso me enoja e macula minha imagem”. Ele garante que não houve uma ruptura nos laços familiares, com os irmãos procurando manter o respeito e a harmonia, mas afirma que o núcleo político se rompeu. “O afastamento político se consolidou”.

Fábio Trad justifica a mudança lembrando a radicalização do cenário político atual e a perseguição sofrida pelo pai, Nelson Trad, que teve o mandato de vice-prefeito de Campo Grande cassado em abril de 1964 e ainda amargou 15 anos de suspensão dos direitos políticos por defender as reformas de base de João Goulart: “Meu pai foi cassado, preso e torturado psicologicamente pela ditadura. Dormia em colchão molhado, ouviu que seria jogado de avião. Foi vítima do fascismo. Por isso não posso, de jeito nenhum, pactuar com essa gente.”

A memória do patriarca está no centro da disputa. Nelsinho reafirma que, desde a época do pai, a família sempre esteve em campo oposto ao PT. Já Marquinhos vê na decisão de Fábio uma reafirmação da herança democrática: “Defender a democracia nunca foi motivo de vergonha, muito pelo contrário. O Fábio é perfil legislativo, importante para a Câmara ou Senado. Mas quem vai decidir é ele e o partido.”

Recém-chegado ao PT, Fábio Trad diz que a decisão foi coerente com sua trajetória e com o momento político. Para ele, já não existe o centro: “Ou estar ao lado das forças democráticas, ou ao lado das forças golpistas. E eu evidentemente optei pelo partido que representa os valores que defendo: soberania estatal, Estado democrático de direito, instituições sólidas e redistribuição de renda.”

Fábio lembra que desde 2019, com a ascensão do extremismo de direita, passou a divergir do partido e a votar na Câmara de acordo com sua consciência. “Eu era chamado de patinho vermelho do PSD”, lembra. Já à vontade no PT, onde diz ter chegado “tardiamente”, Fábio afirma que a radicalização da política o levou a refletir mais profundamente: “Minha saída do PSD se deveu à necessidade de assumir posições mais firmes diante do avanço da extrema direita. Acho que o centro já não existe mais”.

Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da presidência, e Fábio Trad (Foto: Divulgação)

Na linha de frente

Ele acha que é cedo para discutir cargos a disputar, diz que o foco é a reeleição de Lula, mas também tem seus planos. “Se me derem o direito de escolha, será para deputado federal. Não posso dizer não terminantemente a qualquer outra possibilidade, mas minha preferência é voltar à Câmara”.

É no legislativo, diz, que pode ajudar mais: “Eu estou mais atento e mais preocupado com essa instabilidade que pode se intensificar atingindo a soberania do Brasil. Gostaria de estar na linha de frente, em Brasília, que é onde muito provavelmente vai se dar esse confronto político para dar governabilidade ao presidente Lula num eventual quarto mandato”.

Fábio diz que a prioridade do PT é fortalecer as bancadas, tanto na Câmara como no Senado, projeto no qual gostaria de estar inserido. “Eu posso contribuir com experiência legislativa — quase 10 anos de exercício parlamentar — e conhecimento jurídico de 32 anos de advocacia. Quero estar em uma comissão importante, como a de Constituição e Justiça, para ser ativo na governabilidade e barrar investidas da extrema direita.”

Tarcísio é o adversário de Lula

Fábio vislumbra um cenário em que a disputa presidencial se dará entre o presidente e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cuja posição ideológica a ser tomada é o que determinará os rumos da política.

“Vejo já com certa clareza o Tarcísio como candidato da direita. Ele vai tentar captar os votos da extrema direita bolsonarista. Se ele brandir contra o Supremo e a soberania do Estado, teremos novo período de radicalização e polarização”. O ex-deputado avalia que se encampar pautas extremistas, o governador paulista pode ser um ator mais perigoso porque estaria no campo da direita mais esclarecida, “menos chucro, mas com mais potencial de enganar”.

As diferentes visões se projetam no futuro político dos irmãos. Para Nelsinho, a escolha do irmão representa afastamento definitivo da tradição do grupo, historicamente ancorado no centro conservador. Marquinhos enxerga outra possibilidade: “O futuro político do Fábio pode até abrir espaço para uma frente ampla progressista em Mato Grosso do Sul, caso a extrema direita se desgaste. Pelo que conheço dele, está muito atraído por estar em Brasília, ao lado do presidente Lula, mas tudo deve ser considerado.”

Por que não Simone para o governo?

Enquanto Nelsinho Trad (PSD) se aproxima do bloco que orbita em torno de Jair Bolsonaro e de lideranças como Reinaldo Azambuja e Eduardo Riedel, Fábio Trad (PT) se coloca na trincheira oposta, ao lado do campo progressista. Marquinhos Trad (PDT) atua como mediador e, ao mesmo tempo, defensor de uma frente ampla contra o bolsonarismo no Estado. Em comum, resta apenas o sobrenome e o peso da herança política. A unidade, antes inabalável, foi varrida pela polarização.

A entrada de Fábio Trad no PT cria um fato novo no tabuleiro político de Mato Grosso do Sul. O partido já decidiu deixar o governo Eduardo Riedel, se contorce para emplacar um discurso de oposição e sonha com uma frente que seria encorpada pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, nas disputas do ano que vem.

“É evidente que há setores do partido que gostariam de um nome competitivo para o governo do Estado. Por que não a Simone Tebet?”, diz o novo petista, acrescentando: “Ela poderia ser um nome ao governo ou até ao Senado. Tem mais experiência administrativa que eu, foi prefeita e é ministra do governo Lula.” Fábio vê o deputado Vander Loubet decidido a disputar o Senado, mas acha que o Palácio do Planalto terá papel importante na definição de candidaturas. “Lula também precisa ser consultado sobre o quadro em Mato Grosso do Sul.” Os Trad, como se vê, estão em campos opostos. Fonte: Campo Grande News

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