24 de setembro de 2026

Aposentada nem atende à ligação desconhecida, mas acabou vítima do golpe no INSS

A fraude da associações tirava de R$ 15 a R$ 70 por mês das já combalidas finanças

Aposentada e pensionista, Aparecida Marques, 69 anos, nem atende à ligação de número desconhecido para fugir de golpes, mas acabou vítima da fraude “direto” do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), por meio dos acordos do órgão com entidades associativas, que descontam diretamente da folha de pagamento.

“Minha filha que me avisou. E veio perguntar se autorizei o desconto de alguma coisa. Disse que não autorizei nada. Eu nem atendo número de fora. Fomos até ao banco para ver se era algum seguro”, conta Aparecida, que mora em Campo Grande.

Os descontos eram de, respectivamente R$ 45 e R$ 50 por mês. Um para cada benefício, que juntos ficam em torno de 2 mil. Filha da aposentada, Cleonice Marques relata que a mãe depende da aposentadoria e pensão para sobreviver.

“É o dinheiro para pagar luz, aluguel, medicação. Dá uma diferença muito grande”, diz a filha. Aparecida cobra ressarcimento na Justiça. O desconto de R$ 45, por exemplo, começou em outubro de 2023 e já totalizou R$ 900.

O aposentado Alício Benitez, 61 anos, demorou a perceber que uma associação, com sede em São Paulo, descontava em folha no seu pagamento desde 2023. Ele busca na Justiça o ressarcimento para o total de R$ 990.

Faz tempo está sendo descontado, mas é um negócio que a gente não fica sabendo. Nunca entraram em contato comigo. Era coisa de R$ 45, R$ 50. O salário já vinha com desconto é terrível”, diz Alício, que mora em Miranda.

Ao conferir o extrato do pagamento, Hélio Guilherme Santana, 64 anos, descobriu que estava associado a um sindicato. “O valor era de R$ 38 reais, mas em 84 vezes. E um sindicato que não conheço”.

De R$ 15 a R$ 70 – De acordo com a advogada Lorenna Silva de Oliveira, que move cerca de 150 ações contra entidades por descontos ilegais em benefícios do INSS, os valores embolsados pelas associações variam de R$ 15 a R$ 70 por mês. “O que é alto, considerando quem ganha um salário-mínimo. Infelizmente, é uma farra sem precedentes”.

A advogada destaca o perfil vulnerável de grande parcela das vítimas, pessoas com pouca instrução e que até percebiam o pagamento menor, mas acreditavam ser de algum empréstimo.

Ferrari apreendida no Ceará durante operação da PF contra fraudes no INSS. (Foto: Divulgação/PF)

Em tese, a pessoa se associa à entidade para ter direito a benefícios, como auxílio funeral, auxílio jurídico ou desconto em farmácia e consulta médica. Na prática, a maioria não autorizou e nunca recebeu o cartão para ter acesso a vantagens.

Conforme a advogada, há entidades que já decretaram falência e não tem mais bens para serem cobrados. As associações processadas por moradores de Mato Grosso do Sul ficam, principalmente, em São Paulo e Minas Gerais.

Na semana passada, a operação Sem Desconto, deflagrada pela PF (Polícia Federal) e CGU (Controladoria-Geral da União), resultou na suspensão dessas parcelas em todo o Brasil.

Ainda conforme o INSS, aposentados e pensionistas que tiveram desconto de mensalidade associativa não autorizado no contracheque de abril terão o dinheiro devolvido na próxima folha de pagamento (maio).

Já a devolução dos descontos associativos não reconhecidos pelos beneficiários – ocorridos antes de abril de 2025 – serão avaliados por grupo da AGU (Advocacia Geral da União).

Porém, essa possibilidade de devolução gerou uma nova tentativa de golpe. “Muitos clientes estão ligando e perguntando como vai ser a reparação. Mas o INSS não faz ligação e não solicita dados por telefone”, afirma a advogada.

Conforme o próprio instituto, o golpe vem sendo aplicado por e-mail e aplicativos de mensagens. Nessas abordagens, o criminoso envia um link informando sobre um suposto “ressarcimento de descontos de mensalidades associativas”. Mas a oferta é falsa.

Luxo – No País, as entidades investigadas cobraram de aposentados e pensionistas o valor de R$ 6,3 bilhões, no período entre 2019 e 2024. Durante a operação, a PF fez um tour pelo luxo.

A ofensiva apreendeu Porsche Taycan (preço a partir de R$ 820 mil), Ferrari e Rolls-Royce. No cumprimento dos mandados, os policiais ainda apreenderam motocicletas de luxo, como das marcas BMW e Triumph.

Em Curitiba (capital do Paraná), foi apreendida coleção com 24 relógios. Em São Paulo, uma mala recheada de cédulas de R$ 50.  Em Campo Grande, a ação cumpriu mandado de busca. Fonte: Campo Grande News

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