8 de maio de 2026

“Moeda Verde”, crédito de carbono é a nova aposta pela sustentabilidade no setor industrial

 Em Mato Grosso do Sul, “nova moeda” já é usada como forma de pagamento

TEXTO: MAISSE CUNHA

Mais conscientes e vislumbrando oportunidades nesse novo cenário em que a sustentabilidade é considerada para abertura de mercados cada vez mais exigentes, o setor produtivo chamou para si a responsabilidade e elaborou uma proposta para o mercado regulado de carbono em território brasileiro.

O documento foi elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com arquitetura e precificação de emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE), que pode movimentar até R$ 128 bilhões em receitas e aquecer a economia.

Com valor unitário médio de R$ 86,00, os créditos de carbono são um instrumento de incentivo à preservação do meio ambiente usado para compensar financeiramente ações desenvolvidas por diversos setores da economia para mitigar a emissão dos GEE na atmosfera.

Por meio dessa “moeda verde”, empresas ou organizações que implementem ações sustentáveis recebem créditos correspondentes que podem ser comercializados no mercado regulado, vendidos para outras empresas que queiram compensar suas emissões ou até mesmo ser reinvestidos dentro dos próprios projetos.

São exemplos de ações que geram créditos de carbono o manejo adequado do solo, medidas de preservação e recuperação de áreas de preservação permanente (APPs) e reservas legais, combate ao desmatamento ilegal, uso de energia renovável, programas de eficiência energética, tratamento de resíduos, entre outras.

“Trata-se de um mercado no qual empresas negociam permissões de emissões de GEE em um ambiente regulado, com segurança jurídica, transparência e participação do setor privado na estrutura de governança”, explica o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

A iniciativa, que contempla uma das propostas da CNI para uma agenda de baixo carbono, integra a missão “descarbonização”, um dos quatro pilares da política industrial constantes no Plano de Retomada da Indústria, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Andrade acredita que o Brasil tem plenas condições de liderar o mercado global da economia de baixo carbono, considerando sua capacidade de geração de energia limpa, a cobertura por florestas, a riqueza da biodiversidade, além de possuir a maior reserva de água doce do planeta, o Aquífero Guarani.

“Se for bem planejado e conduzido de maneira adequada, esse instrumento poderá estimular o desenvolvimento tecnológico e a geração de riquezas no Brasil”, pontua.

Em Mato Grosso do Sul, crédito de carbono já é usado como forma de pagamento

Crédito de carbono permite investimento sem descapitalização. Crédito: Marcos Maluf  

Pioneiro no Brasil, Mato Grosso do Sul assumiu o ousado objetivo de se tornar o primeiro Estado do país a neutralizar suas emissões de carbono até 2030, antecipando em 20 anos a meta estabelecida no Acordo de Paris.

Para isso, setores público e privado e sociedade em geral estão de mãos dadas e sintonizados no propósito de mitigar a emissão dos gases que causam o efeito estufa, em especial o dióxido de carbono, e alçar o Estado à vanguarda mundial do desenvolvimento sustentável.

Por aqui, interessados em adquirir uma propriedade rural, localizada em Dourados, puderam, pela primeira vez, usar créditos de carbono como forma de pagamento integral ou parcial, num leilão promovido pelo Banco do Brasil, em junho.

O certame considerou valor unitário máximo de R$ 88,27 por crédito e exigiu certificação de acordo com padrões e termos reconhecidos pelo mercado regulado ou pelo mercado voluntário de carbono, como o “Verified Carbon Standard”, referência em certificação.

Diretor de Suprimentos, Infraestrutura e Patrimônio do banco, Gustavo Lellis afirmou que a nova modalidade tem o intuito de fomentar o mercado de créditos de carbono e permitir que os clientes invistam em imóveis rurais sem se descapitalizar. “Fomos os primeiros a investir em uma parceria com uma startup do segmento e oferecer uma experiência totalmente digital para os compradores”, disse em nota.

 

Setor industrial em MS caminha a passos largos rumo à neutralização de carbono

Um dos setores mais visados quando o assunto é redução da emissão dos gases do efeito estufa, a indústria sul-mato-grossense tem ampliado os esforços para se descarbonizar e contribuir para que Mato Grosso do Sul cumpra a meta de se tornar carbono neutro até 2030, conforme estabelecido na Política Estadual de Mudanças Climáticas e no Programa Estadual MS Carbono Neutro (Proclima).

“São ações (carbono neutro) em todos os setores, como pecuária de corte, milho, etanol, cana de açúcar, pois todas as empresas têm correlação com esta agenda, que além de ser de preservação e social, também é econômica. Quem ganha é o meio ambiente e o desenvolvimento do Estado”, avalia o governador Eduardo Riedel.

Braço da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), o Senai tem acompanhado de perto as discussões sobre a comercialização de créditos de carbono, preparado inventários em propriedades rurais e ajudado a estruturar empresas que queiram se adequar à sustentabilidade exigida pelos mercados.

Diretor do Senai, Rodolpho Mangialardo explica o apoio do Serviço àqueles que querem produzir de maneira sustentável. Crédito: Wagner Guimaraes/ALEMS

“O Senai tem feito um inventário das emissões de gases do efeito estufa das indústrias do Estado, inventário de créditos de carbono de algumas propriedades rurais que estão próximas de 100 mil hectares, o que vai facilitar para a gente depois analisar o crédito e o débito e calcular a neutralidade das empresas”, afirma diretor-regional de Senai, Rodolpho Caesar Mangialardo.

Ele conta que o Serviço tem ajudado empresas a elaborar planos de ação para redução de gases do efeito estufa e as preparado para fazer a comercialização dos créditos B4, a 1ª bolsa de crédito de carbono do mundo, lançada neste mês de agosto, na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), com expectativa de movimentar R$ 12 bilhões logo no primeiro ano após o lançamento da plataforma.

“A gente tem ajudado as empresas e as indústrias com planos de ação para poder reduzir a emissão de gases do efeito estufa e acompanhado também a questão da comercialização dos créditos de carbono, com a recém abertura da bolsa B4 na Bovespa em São Paulo, que é uma bolsa específica para crédito de carbono, ou seja, é um mercado que já está acontecendo e tem empresa em conjunto com o Senai preparada para fazer essa comercialização”, pontua.

Pantanal de MS ganha primeira certificação em área úmida no mundo

Projeto na Serra do Amolar, em Corumbá, gerou certificação de 231 mil créditos de carbono. Crédito: Reprodução/ECOA

Consolidando seu pioneirismo nas políticas de preservação ambiental, Mato Grosso do Sul saiu na frente mais uma vez e teve obteve a primeira certificação de créditos de carbono relativa a desmatamento e degradação evitados no Pantanal. Essa é a primeira certificação realizada em áreas úmidas do mundo e gerou 231 mil créditos de carbono.

O projeto “REDD+ Serra do Amolar”, primeiro dentro de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), é uma parceria do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) com o programa Conexão Jaguar, da ISA CTEEP, líder do setor de transmissão de energia elétrica do país, e prevê a redução de até 90% no desmatamento não planejado, causado principalmente pelo fogo.

“É uma iniciativa inédita no Estado e no Pantanal. Um mecanismo chamado REDD+ que recebe crédito por desmatamento evitado. É uma iniciativa muito importante porque mostra que o Pantanal tem potencial ambiental e econômico. Acredito muito nessa linha porque isso gera resultados e contribui para preservação do bioma”, conta o governador Eduardo Riedel.

Presidente do IHP, o Coronel Ângelo Rabelo explica que a área representa um corredor para a biodiversidade pantaneira, que abriga centenas de espécies de aves, mamíferos e répteis.

“Com esse projeto, nós ampliamos a proteção a um sítio do Patrimônio Natural da Humanidade. Além do benefício ambiental, o Programa Conexão Jaguar permite uma revolução econômica no local, à medida que contribui para o desenvolvimento das comunidades pantaneiras. Essa é uma iniciativa privada que caminha ao encontro da necessidade humana sob os aspectos ambiental e social”, disse o presidente do IHP, Coronel Ângelo Rabelo.

Carne vermelha, produção verde

No Pantanal, a proteção do bioma também acontece por outra vertente: a produção de carne bovina orgânica. Sustentável, o sistema busca a valorização do homem e da mulher pantaneira, sua cultura e processos produtivos que gerem menos impacto no bioma, como a criação de animais em pasto nativo e modernas técnicas de produção.

O resultado é um produto diferenciado, com maior valor agregado e que tem gerado excelentes resultados para quem produz. Conforme dados da Embrapa Pantanal e da Embrapa Gado de Corte, de 2021 a 2022, a produção praticamente dobrou, de 41.769 para 78.337 animais provenientes dessa cadeia abatidos.

Há, inclusive, uma associação que congrega os pecuaristas que atuam nessa modalidade, a Associação Pantaneira de Pecuária Orgânica e Sustentável (ABPO), que reúne 213 fazendas em uma área que soma 1,2 milhão de hectares. Todas possuem certificação e levam o selo de “Carne orgânica e sustentável do Pantanal de Mato Grosso do Sul”.

Segundo o presidente da Famasul, Marcelo Bertoni, essa é apenas uma parcela da contribuição do setor produtivo para que Mato Grosso do Sul se torne carbono neutro. “Além de contribuir para reduzir a emissão dos gases do efeito estufa, podemos compartilhar nossa expertise, inspirando outros estados e países a adotarem práticas de produção de baixo impacto. Mato Grosso do Sul tem bons exemplos para o Brasil e para o mundo”, conclui.

 

Populares da Semana

Agraer insere famílias indígenas no Programa de Aquisição de Alimentos

Em Japorã, a Agraer inseriu 19 famílias indígenas da...

Atirador confundiu tatuagem ao executar dono de pizzaria por engano

Verdadeiro alvo de atiradores era o funcionário da pizzaria,...

Carreta com 40 bois tomba em trecho de obra na BR-163 e mata 10 animais

Carreta carregada com 80 bois tombou na madrugada deste...

Reinaldo Azambuja defende criação de Força Tarefa para combater o crime organizado

O governador Reinaldo Azambuja defendeu nesta terça-feira (8/10), em...

‘Estão tentando manchar a honra’, diz filho de Caetano morto em audiência no Procon

“Uma covardia do crime e uma covardia tentar manchar...

Artigos Relacionados

Categorias Populares