27 de maio de 2026

Em Rio Brilhante, Batalhão de Choque despeja indígenas Guarani e Kaiowá após retomada

Neste sábado (26), indígenas Guarani e Kaiowá foram despejados após realizarem uma retomada na fazenda Inho, em Rio Brilhante, local reivindicado como parte pertencente à comunidade tekoha Laranjeira Nhanderu. Na circunstância, o batalhão de choque da Polícia Militar (PM) interviu.

Segundo informações do Conselho Indigenista Missionário, a ação policial foi realizada sem mandado judicial e deixou pelo menos três indígenas feridos com balas de borracha.  

A retomada dos indígenas foi realizada, inicialmente, na madrugada de sábado (26), tratando-se de uma mobilização contra a iniciativa de políticos e agentes de sindicatos rurais que pretendiam estabelecer um assentamento rural na propriedade.  

A fazenda Inho é parte da área reivindicada como de ocupação tradicional pelos Guarani e Kaiowá e está em processo de identificação e delimitação pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

Conforme as lideranças indígenas, a comunidade do tekoha Laranjeira Nhanderu decidiu fazer a retomada após receber informações de que famílias cadastradas para o assentamento ocupariam a área da fazenda neste final de semana.  

Desse modo, a retomada foi realizada como forma de pressionar o Estado para agilizar a concessão de crédito fundiário.

Segundo informações dos indígenas, por volta das 15h30, a tropa de choque da PM chegou de surpresa e partiu para cima da comunidade, com uso de bombas de som e luz, gás lacrimogêneo e balas de borracha.

Conforme o relato de uma das lideranças, que não se identificou, era esperado apenas a ameaça de invasão do grupo que poderia ser assentado no local.

“Nós fomos surpreendidos pela tropa de choque, que chegou atirando, não dialogou nada. Nos desrespeitaram, nós também somos humanos, buscamos o diálogo. É conversando que a gente se entende. Recuamos, e eles continuaram atirando”, explica.  

Momento do despejo  

Em vídeo gravado e divulgado pelos indígenas, é possível ouvir o som de bombas e escutar os policiais mandando os indígenas irem “para trás da cerca”, em meio a gritos de mulheres e crianças.  

“Nós somos humanos também, que nem vocês”, grita uma Guarani Kaiowá na gravação.

Segundo as lideranças, pelo menos três indígenas foram atingidos por disparos de balas de borracha, no joelho, nádegas e barriga. Idosos também passaram mal em decorrência do gás lacrimogêneo.

Ameaças  

As lideranças Guarani e Kaiowá solicitaram apoio da Funai e do MPF ainda pela manhã de sábado.  

No mesmo período, relataram ter sido ameaçados por fazendeiros e por lideranças que estão organizando o grupo de famílias cadastradas para o assentamento.  

Além disso, ruralistas prometeram reunir um contingente maior de pessoas para ocupar o local e retirar os indígenas.

Assentamento ilegal  

Os indígenas de Laranjeira Nhanderu têm denunciados, há meses, a iniciativa ilegal de criação de um assentamento nos limites da área ancestral.  

A área é reivindicada como de ocupação tradicional e tem sido incluída no estudo antropológico para a demarcação do território.

Segundo as lideranças do povo, “Ramão”, pai do vereador Adão Evandro Leite, de Rio Brilhante, buscava concordância dos indígenas sobre a afirmação de que a área não estaria dentro do estudo da Funai.

Além disso, declararam que Ramão estaria afirmando que a terra não seria área indígena e que deveriam concordar com o avanço do assentamento.  

Os Guarani e Kaiowá negaram qualquer anuência e denunciaram a pressão ao Ministério Público Federal (MPF), à Fundação Nacional do Índio (Funai) e a apoiadores.

O território

O território de Laranjeira Nhanderu está incluído nos estudos da Terra Indígena (TI) Brilhantepegua, ainda em processo de identificação e delimitação.

Mesmo com o processo demarcatório em curso, os indígenas foram forçados a viver por mais de 15 anos numa pequena faixa de mato nos fundos da fazenda Santo Antônio, ligada à fazenda Inho, onde ocorreu a retomada realizada no sábado.  

Ação ilegal da Polícia Militar  

Conforme a avaliação do assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Mato Grosso do Sul, Anderson Santos, o despejo foi realizado sem respaldo legal.  

Algo que repete outras ações extrajudiciais já ocorridas no estado, como o despejo contra o povo Kinikinau, em 2019.

“A exemplo do que aconteceu também com os Kinikinau, não foi de fato um cumprimento de uma ordem de reintegração de posse. Foi o Estado tomando partido a favor de um particular, no caso o proprietário rural, e em desfavor da comunidade indígena, que tem uma pauta legítima, reivindicando a demarcação de um território”, explica o assessor jurídico.

Ao entrar em contato com o Batalhão de Choque da Polícia Militar, a redação do Correio do Estado não obteve informações sobre a ação. Apenas foi informado que em breve os policiais devem deixar a área rural e passar mais detalhes.  

fonte: correio do estado

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