26 de setembro de 2026

Pré-natal basta? Mortes maternas em MS reforçam importância de identificar riscos e agir rápido

Dados divulgados pela SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), no  Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Fetal e Infantil, referente ao ano de 2025, chamam a atenção de especialistas para a importância de identificar possíveis complicações durante e após a gestação, principalmente a partir do pré-natal.

Conforme o boletim, no ano passado, 21 mães morreram ao dar à luz. A principal causa da mortalidade materna foi a pressão alta, seguida de hemorragia. A hipertensão foi responsável por 38,09% (8) dos óbitos maternos no Estado. Já a hemorragia matou 33,33% (7) das mães. Duas delas (9,52%) morreram de tuberculose, e outras quatro (19,04%) de causas não especificadas no informativo. Ainda conforme o boletim, 47,6% das vítimas tinham entre 30 e 39 anos.

Campo Grande liderou o ranking estadual de mortalidade materna, com seis óbitos. Depois, e Dourados registram duas mortes cada. Por fim, houve uma morte materna em , Batayporã, Cassilândia, Chapadão do Sul, Coronel Sapucaia, Coxim, Japorã, Nova Andradina, Paranhos, Sidrolândia e .

Importância do pré-natal

Diante do cenário, a médica obstetra Vanessa Chaves reforça que o pré-natal é indispensável, pois permite acompanhar a evolução da gestação, identificar fatores de risco e antecipar cuidados específicos, quando necessário.

No entanto, o acompanhamento não se resume apenas à quantidade de consultas e à frequência com que a gestante procura o médico. Para que o acompanhamento cumpra seu papel, é preciso que, de fato, os riscos sejam reconhecidos, classificados e encaminhados adequadamente ao longo da assistência.

Para isso, é necessário observar o que acontece durante as consultas e depois que um risco é identificado. “O grande desafio é avaliar a qualidade das consultas. Em tese, o número de consultas seria suficiente para identificar riscos. O que vemos, porém, é que muitas vezes esse risco não é classificado e, quando é, existe uma demora para que essa paciente chegue ao serviço terciário, de alto risco.”

Vanessa acrescenta que o cuidado vai além das consultas, pois, além da possibilidade de surgimento ou agravamento durante a gestação, as complicações podem ocorrer durante o parto e no período posterior. Por esse motivo, o cuidado exige que a própria mulher, a família e as equipes de saúde consigam reconhecer mudanças importantes e agir rapidamente.

Você conhece o conceito das ‘quatro demoras’?

Ao investigar as mortes maternas, Vanessa explica que as causas podem estar interligadas a diferentes pontos em que a assistência pode demorar para agir. Esse conceito é chamado de “quatro demoras” pela médica.

A primeira acontece quando a mulher ou a família não reconhece que determinado sintoma pode indicar uma complicação, enquanto a segunda ocorre quando a gestante procura uma unidade de saúde, mas o problema não é identificado pela equipe.

Já a terceira demora acontece no intervalo entre o diagnóstico ou a suspeita de uma complicação e a chegada da gestante ao serviço de referência. Por fim, a quarta acontece já dentro do hospital, quando há demora no diagnóstico ou na definição da conduta.

“Essas demoras ajudam a entender onde a assistência pode falhar. A paciente precisa reconhecer que alguma coisa está diferente, a equipe precisa identificar o risco e, quando necessário, garantir que ela chegue ao serviço adequado”, frisa Vanessa.

Quais sinais merecem atenção?

Entre as principais causas de mortalidade materna citadas pela obstetra, estão as doenças hipertensivas, as hemorragias e a sepse.

No caso da hipertensão, os sinais de atenção incluem: dor de cabeça, inchaço desproporcional, ganho rápido de peso, tontura e alterações na visão. Vanessa ressalta que esses sintomas não devem ser naturalizados durante a gestação e precisam ser avaliados por profissionais de saúde.

Já o risco de hemorragia é avaliado com base no histórico de sangramento em parto anterior, múltiplas cesarianas ou vários partos anteriores. “Cada patologia tem seus fatores de risco e seus sinais. A paciente e a família precisam receber informação para perceber quando alguma coisa está diferente e levar essas informações para a equipe de saúde.”

Quando o risco vira emergência?

Segundo a médica obstetra Vanessa Chaves, mesmo seguindo o acompanhamento da forma adequada, podem ocorrer situações em que uma complicação evolui e exige atendimento imediato. Diante dessas ocorrências, o tempo de resposta e a preparação da equipe podem ser decisivos para a gestante e o bebê.

A médica destaca, ainda, que o reconhecimento de uma emergência obstétrica não depende apenas do médico, visto que a paciente passa por diferentes profissionais ao longo do atendimento, e cada um deles pode identificar uma mudança importante e contribuir para uma intervenção mais eficaz.

“É o enfermeiro que faz a classificação de risco, é o técnico de enfermagem que afere a pressão, e são vários profissionais acompanhando essa paciente. Essa avaliação precisa acontecer várias vezes ao longo do atendimento, não apenas na admissão”, expressa a médica.

Para que a equipe esteja preparada para identificar os sinais e agir, é necessário investir em qualificação contínua. A mortalidade materna e o preparo das equipes, inclusive, são temas de discussão em debate promovido pela Sogomat (Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Mato Grosso do Sul), que está sendo realizado em Campo Grande durante os dias 24 e 26 de setembro.

Preparo das equipes é fundamental

Segundo Vanessa, a proposta é levar atualização científica aos obstetras e aproximar o debate da realidade encontrada na assistência. “A sociedade tem esse papel de levar conhecimento científico e atualização aos obstetras, além de mostrar como os treinamentos e a educação continuada podem fazer diferença na assistência.”

Vanessa cita como exemplo o OBCODE, curso oferecido pela CoreHelp para capacitar equipes no atendimento a emergências obstétricas. A formação aborda o reconhecimento rápido dos quadros, a organização da assistência e a atuação integrada dos profissionais em situações que exigem resposta imediata.

Segundo o instrutor do curso, Denis Corrêa, treinar previamente as equipes permite que os profissionais estejam mais preparados para lidar com situações críticas. “Em uma emergência obstétrica, cada profissional precisa saber reconhecer a gravidade da situação, entender seu papel e atuar de forma coordenada. O treinamento permite que a equipe pratique essa resposta antes de enfrentar um caso real.”

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