25 de setembro de 2026

Mulheres idosas são as principais vítimas de golpistas em MS

Mato Grosso do Sul acumula 20,8 mil denúncias; especialistas apontam fraude financeira e abuso patrimonial

Mulheres idosas são maioria entre as vítimas de violações registradas em Mato Grosso do Sul e acendem alerta para um problema que se agrava no Estado: golpes financeiros, fraudes virtuais e abuso patrimonial contra a terceira idade. Dados do Observatório da Cidadania da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) mostram que 62,2% das denúncias envolvendo pessoas idosas atingem o público feminino. Ao todo, já são mais de 20,8 mil registros.

Embora o levantamento trate de violações em geral, especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que crimes ligados a dinheiro, uso indevido de benefícios e estelionatos digitais estão entre os casos mais recorrentes atualmente. O cenário ganhou ainda mais atenção nesta semana, após comissão da Câmara dos Deputados aprovar proposta que cria uma rede nacional de proteção contra golpes e abusos financeiros praticados contra idosos.

Presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa Idosa da OAB/MS (Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso do Sul), o advogado Nelson Alfonso afirma que os números mostram uma realidade consolidada no Estado.

“Os dados revelam uma realidade pulsante em Mato Grosso do Sul. Temos taxa superior a 312 casos de violência para cada 100 mil habitantes. Isso prova que o estelionato e o abuso financeiro não são situações isoladas, mas um problema que cresce a cada dia nas nossas cidades”, afirma.

Vulnerabilidade – Para Nelson Alfonso, o fato de mulheres aparecerem como maioria nas denúncias envolve fatores emocionais, familiares e sociais.

“Os números em Mato Grosso do Sul são claros: 62,2% das denúncias envolvem mulheres. Isso acontece porque a mulher idosa costuma ser o pilar da família. Os criminosos exploram esse lado emocional no golpe do WhatsApp, fingindo ser um filho em dificuldade, ou nos golpes de relacionamento amoroso, quando simulam interesse para conquistar confiança e depois pedir dinheiro”, relata.

Ele também cita a violência patrimonial praticada dentro da própria casa, quando parentes utilizam aposentadoria, cartão bancário ou recursos financeiros sem autorização.

Exposição – Segundo o advogado, a migração acelerada para serviços digitais após a pandemia aumentou a vulnerabilidade da população idosa.

“É importante entender que muitos idosos foram empurrados para o mundo digital. Após a pandemia de covid-19, eles se viram obrigados a usar aplicativos para tudo, comprar alimentação, remédios, agendar consultas médicas, acessar o Meu INSS, o Detran ou até conseguir descontos em cadastros. Essa mudança rápida, sem uma orientação de segurança, facilitou a ação dos criminosos”, explica.

O levantamento da UFMS, divulgado através do Observatório de Cidadania, aponta ainda que a faixa etária com maior incidência de denúncias no Estado está entre 70 e 74 anos.

“É justamente quando a pessoa costuma precisar de mais ajuda de terceiros para mexer no celular. Os golpistas se aproveitam dessa necessidade e da confiança natural que os idosos depositam no próximo”, completa.

Entre as fraudes mais relatadas atualmente, a OAB/MS cita o falso WhatsApp, quando criminosos usam foto e nome de parentes para pedir transferências, ligação de falso atendente bancário para obter senhas, empréstimo consignado irregular, falso sequestro e falso advogado que cobra taxa para liberar suposta ação judicial.

Outro avanço recente é o uso de inteligência artificial para imitar voz e imagem de familiares, aumentando a chance de convencimento da vítima.

Cursos – Enquanto os golpes se sofisticam, iniciativas locais tentam reduzir a vulnerabilidade da terceira idade. Em Mato Grosso do Sul, a UFMS mantém cursos gratuitos de inclusão digital por meio da UnAPI (Universidade Aberta à Pessoa Idosa), com atividades em Campo Grande, Ponta Porã, Três Lagoas, Naviraí e Coxim.

A coordenadora-geral do programa, a professora doutora Camila Guimarães Polisel, explica que as aulas são voltadas justamente para as dificuldades comuns enfrentadas por idosos no uso da tecnologia.

Segundo ela, os participantes aprendem desde funções básicas de smartphones e computadores até uso de WhatsApp, chamadas de vídeo, redes sociais, aplicativos bancários, Pix, Gov.br, compras online e identificação de mensagens suspeitas, links falsos e tentativas de golpe.

“Muitos chegam com medo de estragar o aparelho, receio de fazer alguma operação errada ou dificuldade para entender termos tecnológicos. Nosso trabalho é mostrar que eles podem aprender no próprio ritmo e usar a tecnologia a favor da autonomia”, explica.

A coordenadora afirma que os resultados costumam aparecer rapidamente. Após as aulas, muitos alunos relatam mais segurança para mexer no celular, independência para resolver tarefas do dia a dia e redução da dependência de familiares.

Em alguns polos, a procura é alta e há fila de espera por vagas. Em Campo Grande, as inscrições ocorrem por editais semestrais publicados pela Proece (Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Esporte) da UFMS. Os interessados também podem buscar informações diretamente na secretaria da UnAPI, na Cidade Universitária.

A orientação é procurar imediatamente o banco para bloquear contas e cartões, guardar comprovantes e prints de conversas, além de registrar boletim de ocorrência.

Também é recomendado avisar familiares próximos e alterar senhas de aplicativos bancários e redes sociais caso haja suspeita de invasão. Fonte: Campo Grande News

Idosos participam de aula de inclusão digital promovida pela UFMS em Campo Grande. (Foto: Divulgação UFMS)

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