26 de setembro de 2026

Família busca por respostas sobre ex-paratleta de MS morto em Pernambuco: ‘Nosso homem-menino’

O ex-paratleta sul-mato-grossense Maykon Douglas Almiron é definido como um multicampeão escolar e um ótimo atleta pela treinadora Marli Cassoli. Maykon tinha 35 anos e foi assassinado no dia 13 de fevereiro em Boa Viagem, Zona Sul de Recife, em Pernambuco.

Natural de Bela Vista, Maykon se mudou para Campo Grande com 11 anos de idade, onde morou nos bairros São Conrado e Vila Fernanda. Na adolescência, quando era aluno da Escola Municipal Maria Tereza Rodrigues, o rapaz foi apresentado à Marli, professora de Educação Física e técnica de atletismo e bocha paralímpicos.

Ao Jornal Midiamax, a treinadora contou que a escola parou para que ela e o professor Silas Silvestre conhecessem Maykon. Na época, Marli atuava no projeto de Educação Física Adaptada e Esportes Adaptados, da Semed (Secretaria Municipal de Educação).

 

“Ele veio para mim como atleta indicado pela própria Escola Municipal Maria Tereza, ainda quando era adolescente! A escola parou para conhecermos o Maykon… Estava no gol na quadra da escola e se jogava para defender o gol quando os amigos chutaram… Foi inesquecível…”, lembrou a professora.

Marli comentou que enfrentou uma luta para convencer Maykon a entrar na bocha e polybat — estilo de tênis de mesa adaptado. Logo que aceitou experimentar a modalidade, o rapaz passou a ser atendido pela professora de Educação Física Katia Cristina, da própria escola municipal, e pela técnica Marli na Associação Paradesportiva. “Foi um multicampeão escolar. E depois se tornou um ótimo atleta na categoria principal”, descreve a profissional.

Para a família, o rapaz era um homem-menino. “O Maykon era o nosso homem-menino, gostava da sua liberdade e autonomia, inteligente e sabia muito bem o que queria da vida”, falou um familiar à reportagem.

Medalha de ouro na Argentina

Em 2013, Maykon foi convocado para a seleção brasileira de bocha paralímpica. Ele ganhou medalha de ouro nos Jogos Parapan-americanos e Jovens em Buenos Aires, na Argentina. No ano seguinte, o paratleta conquistou medalha de prata no Chile, em dupla.

Entre os inúmeros voluntários nas viagens para as competições, a treinadora destacou a ajuda de três professores. “Para Maykon viajar para competições, ele precisava de staff: professor Marcos Antunes, tia Eliane e, sobretudo, o professor Reginaldo Tadeu Fundador. Sem esses três, ele não teria ido tão longe”, declarou.

Treinadora de Maykon há mais de dez anos, Marli expressou a tristeza ao saber da morte do ex-paratleta de Mato Grosso do Sul. Ela soube na manhã de quinta-feira (26) por uma amiga, que viu uma reportagem sobre a morte de uma pessoa com deficiência, a qual lhe chamou a atenção.

“Mal consegui dirigir o carro até o treinamento na UFMS. Chegando lá… foi uma comoção só. Ontem foi um dia muito tenso! Pois todos queríamos acreditar que não passava de um mal-entendido. Liguei várias vezes para ele… esperando que atendesse com aquele humor irônico que lhe era peculiar. Mas não aconteceu. Somente a noite, a família teve a resposta de que se tratava mesmo dele”, lamentou a treinadora.

Mesmo morando fora de Mato Grosso do Sul, Maykon nunca deixou de ligar para a professora de Educação Física. Em 2020, ele atendeu a um convite para participar do 1° Open virtual de bocha em plena pandemia de covid-19. Na época, o rapaz foi até a casa de Marli e ficou na varanda, devido aos protocolos exigidos.

Em 2025, o rapaz esteve em Campo Grande, oportunidade em que Marli pediu que ele retornasse a morar na Capital. “Nesse dia, pedi muito para voltar para Campo Grande e vir somar comigo na ADD… como auxiliar da bocha… Ele riu muito e disse: ‘A senhora quer acabar com a equipe? (risos). Sabe como eu sou exigente e rigoroso… o oposto da senhora… se me colocar para te ajudar… acabarei com a equipe (risos)’. Ele era muito divertido e único na forma como vivia e encarava a vida!”, afirmou Marli.

Para a técnica de atletismo e bocha paralímpicos, o que a marcou foi quando ela recebeu um convite para passar cerca de 10 dias com o ex-paratleta em Recife, mas, diante da alta temporada, recusou. A última mensagem de Maykon recebida foi no dia 18 de janeiro, “dizendo como é bom recordar”.

Assassinato

As circunstâncias exatas da morte do sul-mato-grossense estão sob investigação da 3ª DHPP (Delegacia de Polícia de Homicídios da Capital, integrante do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) de Pernambuco. A família da vítima soube que ele teria sido sepultado como indigente em um cemitério localizado na Zona Oeste de Recife. Nesta sexta-feira (27), eles aguardam pelo atestado de óbito do rapaz.

A suspeita é de que Maykon morreu após ser arremessado do quarto andar de um prédio em Boa Viagem, no último dia 13. O autor teria se jogado do prédio após o crime e morreu no hospital.

Conforme as investigações, o suspeito teria descido do apartamento com uma amiga e foi ao calçadão de Boa Viagem, onde teria conhecido Maykon, que vendia doces. Comovido com a história do cadeirante, o autor teria o convidado para subir até o apartamento.

Na ocasião, os três teriam passado um tempo conversando no imóvel. O autor então teria se alterado e tentado agredir a amiga, que conseguiu fugir com a ajuda de uma funcionária do prédio. Em seguida, o homem teria arremessado Maykon da varanda, junto da cadeira de rodas.

“Eles ainda passaram um tempo conversando, segundo testemunhas, mas, em determinado momento, essa pessoa teve um surto, começou a mudar o comportamento, tentou agredir essa amiga e ela fugiu com uma funcionária. Maykon, que é cadeirante, não tinha como correr, ficou e foi arremessado da varanda do apartamento junto com a cadeira de rodas, e morreu no local”, disse o delegado Rodrigo Bello, de Recife, à TV Gazeta de Maceió.

Segundo a mãe do autor, o autor do crime, ainda em surto, passou a arremessar objetos diretamente da varanda e se jogou ao vê-la.

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