26 de setembro de 2026

Das 229 casas de madeira que guardam a história de Naviraí, apenas 27 estão conservadas, aponta pesquisa

As casas de madeira que marcaram a ocupação de nas décadas de 1960 e 1970 são objeto de estudo realizado por professores e estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) em Naviraí. A pesquisa consiste em identificar, mapear e analisar as edificações ainda existentes, investigando seu estado de conservação e sua importância para a memória urbana do município.

Conforme explicam os coordenadores do projeto, as residências de madeira são consideradas testemunhos da origem da construção da cidade, durante o ciclo da exploração madeireira. As edificações ajudam a compreender como a cidade foi ocupada, como viviam seus primeiros moradores e quais técnicas construtivas caracterizavam aquele período.

A partir de fotografias históricas, o grupo de pesquisa identificou que, na época da fundação do município, uma parcela significativa das edificações era construída em madeira. Além do valor histórico, essas construções apresentam características arquitetônicas próprias, incluindo adaptação ao clima, conforto ambiental e soluções construtivas que diferem das edificações contemporâneas.

Até o momento, um dos principais resultados do trabalho foi a identificação das casas que ainda permanecem preservadas. A estimativa inicial apontava para cerca de 240 imóveis, mas a atualização dos dados contabilizou 229 residências. O número já considera a demolição de seis casas ocorrida entre 2023 e 2026. Para o professor Ricardo Bitencourt, o resultado surpreendeu. “Ainda assim, o número impressiona. Não parecia haver tantas unidades preservadas.”

Equipe responsável pela pesquisa. (Foto: Reprodução, UFMS)

Visitas in loco e uso da IA

A pesquisa foi dividida em diferentes etapas de investigação. O pontapé inicial consistiu no levantamento e na organização das informações existentes sobre as casas, incluindo mapas, fichas cadastrais e setorização dos imóveis. Na sequência, a equipe saiu em campo para confirmar a localização das residências, atualizar registros fotográficos e verificar seu estado de conservação, em visitas técnicas previamente agendadas com os moradores.

Durante os encontros, os pesquisadores realizavam medições, observações, registros fotográficos e conversavam com os proprietários, coletando informações que ajudaram a compreender tanto as características físicas das construções quanto sua importância afetiva para a comunidade.

Apenas 27 casas estão conservadas, aponta pesquisa

Finalizada a etapa do levantamento, cada residência passou por uma avaliação técnica baseada em um checklist elaborado especificamente para edificações em madeira. A equipe avaliou diferentes aspectos das estruturas, como umidade e infiltrações, identificadas por manchas e sinais de água nas paredes. A análise incluiu também o estado da proteção superficial da madeira, além das condições de calhas, rufos e encaixes, com atenção à vedação e à conservação do telhado.

Os resultados obtidos, porém, revelaram um cenário que demanda atenção, pois, das 229 casas analisadas, apenas 27 apresentam estado muito bom de conservação, enquanto outras 166 encontram-se em condição intermediária. Já 36 apresentam estado ruim.

Para o professor Ricardo Bitencourt, as casas podem ser consideradas patrimônio cultural da cidade, dada sua relevância para a história de Naviraí. Dessa forma, o desaparecimento dessas construções representa a perda da memória coletiva e da história dos antigos moradores do município. “Elas testemunham a ocupação de Naviraí nas décadas de 1960 e 1970, impulsionada pelo ciclo da madeira. Infelizmente, hoje não existem políticas públicas voltadas para sua preservação.”

(Foto: Reprodução, UFMS)

Formação acadêmica e valorização da memória

Conforme avalia o professor Ricardo Bitencourt, além de trazer resultados científicos, o projeto também tem contribuído para a formação dos estudantes envolvidos.

“Ao mesmo tempo, [eles] contribuem para a geração de conhecimento sobre o patrimônio local e para a formação de profissionais mais preparados para atuar na preservação do patrimônio cultural”, reforça Bitencourt.

A experiência também proporcionou o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao levantamento técnico, identificação de patologias construtivas, organização de dados, documentação arquitetônica e comunicação.

O aluno destaca que o contato com os moradores permitiu compreender o valor afetivo dessas residências, além de fortalecer seu olhar crítico sobre a preservação do patrimônio arquitetônico. “No início, alguns moradores demonstravam certa desconfiança, mas muitos foram bastante receptivos e compartilharam suas histórias e lembranças com grande generosidade. Esses relatos foram fundamentais para enriquecer a pesquisa e compreender o valor afetivo dessas residências para a comunidade.”

Imagens comparam casas com o cenário atual. (Foto: Reprodução, UFMS)

Próximos passos

A pesquisa ainda está em andamento com a sistematização dos dados coletados, ampliação do acervo documental e levantamento de registros históricos junto à Fundação de Cultura de Naviraí. A equipe também trabalha na consolidação das análises para elaboração de um artigo científico e do relatório final da pesquisa.

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