9 de agosto de 2026

Mulheres redefinem o futuro em MS com independência e longe do ‘sonho’ de casar ou ter filhos

Pretensão, interesse, sonho. Os termos – que neste contexto associam-se ao desejo de casar e/ou ter filhos -, desta vez, fogem do caminho considerado ‘tradicional’. Atualmente, o matrimônio, assim como a maternidade, deixou de ser objetivo para se tornar ‘opção’ para muitas mulheres.

Conforme Paula Jornada, ginecologista endócrina e reprodutiva, ainda existe uma grande pressão social quanto à maternidade. Culturalmente, a reprodução é tida como um caminho natural para todas as mulheres, por isso, quando uma delas diz em alto e bom tom que não quer ser mãe, acaba enfrentando julgamentos até mesmo no ambiente familiar.

O que socialmente pode parecer uma escolha temporária influenciada principalmente pela idade, externaliza-se quase como um alívio para mulheres que, enfim, podem se mostrar convictas de suas decisões. Na realidade, existem diversos fatores sociais, culturais e econômicos que mostram que ‘o buraco é mais embaixo’ quando se trata deste tipo de sonho.

 

A pergunta ‘quando você vai casar?’, por exemplo, rondou a vida da esteticista Cristina Nolasco, de 52 anos, por um longo período. Sem marido ou filhos, a campo-grandense relembra que nunca teve o mesmo interesse das irmãs quando o assunto era família. Com o passar do tempo, aquilo que antes poderia parecer imaturidade, se consolidou como independência e responsabilidade.

“Sempre falei assim: se acontecer de eu ter filho, claro, terei, mas não é o meu sonho. E como eu não quis casar, também achei que não era legal ter filhos sem ter um pai presente ali. Eu acho que não tem que ter só o meu desejo de ter filho. Tem que pensar na criança. Vários fatores influenciaram eu não querer ter filhos. Isso não quer dizer que eu não seria mãe de jeito nenhum. Acho muito importante a gente não ser egoísta, não pensar só no ‘se eu quiser ter filho’”, destaca.

Cristina Nolasco, 52 anos, esteticista (Foto: Léo de França, Jornal Midiamax)

‘Mudar de ideia’?

O longo caminho traçado ao longo de toda a vida da esteticista serviria quase de inspiração para Maria Clara Silva, de 19 anos. A acadêmica de Terapia Ocupacional, que também não pretende nem casar, nem ter filhos, afirma que seu verdadeiro sonho é viajar o mundo.

“Se tem que escolher uma coisa só, a minha prioridade é eu mesma”, explica. Além disso, devido a idade, Maria comenta que sua mãe até acha que ela pode mudar de ideia, mas seu ‘desejo de viver muita coisa’ fala mais alto. “Eu não me deixo levar pelo que os outros falam, porque quem vai ter o filho sou eu, eu que vou cuidar. E a gente vive numa sociedade em que as mulheres se sobrecarregam com os filhos. Pode ter o pai ali, mas nunca vai ser o mesmo suporte”.

Dos custos ao medo

“A mulher só está em uma relação de verdade quando casa de papel passado”, mas será mesmo? A frase ouvida pela jornalista Nicolle Ignacio, de 31 anos, não só gerou reflexão, como também a fez entender que o compromisso de um relacionamento está além de um papel assinado.

Já quando se trata de filho, as motivações para não se tornar mãe são um pouco mais complexas. Diferente de Cristina e Maria Clara, a jornalista explica que até já sonhou com a maternidade, mas mudou de ideia assim que descobriu o ‘peso’ – principalmente financeiro – da responsabilidade.

“Eu entraria em parafuso se não conseguisse suprir tudo o que uma criança precisa e merece, já que amor, sozinho, não enche barriga, não veste, não garante plano de saúde. Então por questões inteiramente financeiras, eu escolhi não colocar ninguém no mundo – com o passar do tempo, essa escolha se tornou uma certeza por outros tantos motivos, como: a segurança do nosso país (eu não viveria em paz se fosse mãe de uma menina. Ia ficar com medo de vê-la sair pra ir pra escola, pras festas dos amigos, pra faculdade, pro trabalho…). Também não teria paz sendo mãe de menino, sempre na preocupação de: será que estou passando os valores certos pra um rapaz que é bombardeado com conteúdos que incentivam a machucar mulheres? Será que ele está com companhias que partilham dos mesmos ensinamentos que os que eu tento dar?”, comenta.

Imagem ilustrativa, família caminhando no centro (Foto: Léo de França, Jornal Midiamax)

Apoio e respeito

Quando se trata de mulheres, a empatia fala mais alto em muitos momentos. Daquelas que engravidaram por acaso, sem o desejo de ser mãe, àquelas que sonham com a maternidade, existe ainda um sentimento que une muitas delas: a compreensão.

A atendente de loja Gabriela Fernandes, de 29 anos, não almejava a maternidade e engravidou aos 24 anos em uma troca de remédio anticoncepcional. Mãe solteira, ela destaca que, muitas vezes, a escolha de ‘não maternar’ reflete grande responsabilidade.

“Eu entendo e eu apoio. Eu como mãe eu acho maravilhoso, porque a gente sofre quando vê outra criança sofrendo. Porque uma mãe arrumou um padrasto mal, ou uma mãe não cuida da criança. Quando a gente vai na escola, a gente vê. Aquela criança tava com fome, aquela criança tá suja… A gente percebe. Quem não quer, não tenha. Acaba que a criança vai sofrer e as pessoas vão sofrer, porque você vai criar uma criança que não queria. E aí, mais mal pro mundo, que já é um mundo muito difícil pras nossas crianças e pra gente”, relata.

Bruna Kramer, de 28 anos, é publicitária e sonha tanto em se casar quanto ter filhos. Seu desejo, contudo, não reflete em sua opinião quando se trata da vontade de outras mulheres. “Quando eu penso nisso, eu não acho que seja uma regra você casar, ser mãe, ter filhos. Não acho que seja uma regra. Acho que você tem seu livre arbítrio para poder escolher como você quer viver com isso”.

Pressão social

Conforme Paula Jornada, ginecologista endócrina e reprodutiva, a decisão de não ter filhos tem se tornado cada vez mais comum nos últimos anos. Após muita reflexão, ela informa que a escola geralmente surge devido ao foco na carreira profissional, projetos pessoais e qualidade de vida.

Dra. Paula Jordana, ginecologista endócrina e reprodutiva (Foto: Reprodução)

“É mais comum a gente observar isso em mulheres entre 30 e 40 anos. São mulheres que têm a carreira mais estruturada, que têm mais clareza com relação aos projetos de vida. São mulheres mais focadas na carreira, em objetivos pessoais. E elas já chegam no consultório com essa decisão muito bem definida. Mas isso não é regra. Existem também pacientes, por volta dos seus 20 anos, que já têm bastante convicção de que não querem ser mães. Então, cada história é única. Meu papel como profissional é acolher, escutar, orientar e respeitar o contexto de vida de cada uma”, destaca.

Além disso, a médica destaca que é importante que a mulher conheça seus direitos e entenda as possibilidades dentro da medicina reprodutiva. O congelamento de óvulos, por exemplo, é uma opção viável para aquelas que querem assegurar a possibilidade para um futuro; já os métodos anticoncepcionais auxiliam para que a gravidez não ocorra.

“Ter ao lado um profissional que vai esclarecer todas as suas dúvidas e ajudá-la a definir qual a melhor opção para o seu momento de vida atual. Quando essa decisão é tomada com informação, reflexão e com segurança, ela tende a ser muito mais tranquila ao longo do tempo”.

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