12 de julho de 2026

Maior esquema de lavagem de dinheiro do tráfico é descoberto na fronteira

A localidade do comércio pode não representar em nada o poder econômico que o estabelecimento movimenta. Em Corumbá, uma transportadora em vizinhança de imóveis simples, instalada em prédio de dois andares e portas manuais de enrolar e que fica em um quarteirão próximo a ruas movimentadas da cidade, praticamente passa despercebida. 

Conforme investigação da Polícia Federal, foi a responsável por ter uma das maiores movimentações financeiras ilegais da região de fronteira com a Bolívia nos últimos seis anos.

Entre 2013 e 2019, três irmãos, duas mulheres e um homem, com nacionalidade brasileira e descendência boliviana, proprietários da transportadora movimentaram R$ 27,5 milhões, montante que seria para lavagem de dinheiro originado de crimes transnacionais, principalmente o tráfico internacional de drogas. 

Esse esquema é o maior em volume financeiro divulgado pela PF na região após operações desencadeadas em 2021.

Na investida de tentar interromper esse esquema criminoso, envolvendo evasão de divisas e lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, 20 policiais federais atuaram diretamente na Operação Washer, deflagrada ontem, para o cumprimento de três mandados de busca e apreensão em Corumbá e outros dois na cidade de São Paulo.  

INVESTIGAÇÃO  

Nas visitas feitas aos endereços, na casa dos investigados e na transportadora, foi encontrado também o maior volume de dinheiro apreendido em operações ligadas a lavagem de dinheiro ou a ações na região de fronteira que localizaram recursos sem declaração neste ano. Houve um total de R$ 336.531,00, US$ 19.194, 100 euros e 530 bolivianos em espécie.  

A somatória desses valores chega perto de R$ 500 mil, escondidos em sacolas de supermercado e pacotes de lojas, dentro de bolsas guardadas em cofre e caixas de papelão.

A transportadora, conforme registro, era de sociedade empresarial limitada e foi constituída em 24 de agosto de 1989. Ela foi montada como empresa de pequeno porte, e a atividade principal era o transporte rodoviário de cargas. 

Em 31 de maio deste ano, a situação cadastral dela sinalizou que o registro foi baixado e a extinção ocorreu por encerramento voluntário. Conforme apuração, essa investigação envolvendo a transportadora e os três irmãos com ligação na Bolívia começou em 2017.

O movimento financeiro que ela obteve ao longo dos anos pode até ser enquadrado nos patamares de uma empresa de pequeno porte, que está autorizada a ter faturamento anual de até R$ 4,8 milhões para ser enquadrada nos critérios fiscais. 

O que acabou chamando a atenção dos policiais federais é que as notas apresentadas não tinham fundamentação concisa e comprovações adequadas sobre a prestação de serviço.

“As investigações demonstraram que, entre 2013 e 2019, foram movimentados mais de R$ 27,5 milhões. Além disso, constatou-se o recebimento de valores provenientes de diversas origens do País sem fundamentação econômico-financeira, com imediata realização de pagamentos ou de transferências a terceiros sem justificativa aparente”, divulgou a Polícia Federal sobre a ação.

“A Operação Washer investiga um suposto esquema criminoso de lavagem de dinheiro e evasão de divisas originário do tráfico transnacional de drogas, por meio de empresas que atuam no setor de transporte de cargas”, completou.

Sobre os três principais investigados no caso, nenhum foi preso durante essa etapa da investigação. Em São Paulo, os policiais federais estiveram em uma casa que teria ligação com os irmãos e, por lá, também houve a apreensão de documentos, que serão trazidos para a Polícia Federal em Mato Grosso do Sul e passarão por perícia. 

Tanto na Justiça federal como na Justiça estadual de Mato Grosso do Sul, não existem registros de inquéritos criminais envolvendo os três investigados.

LAVAGEM DE DINHEIRO

De acordo com a Polícia Federal em Corumbá, a investigação envolvendo lavagem de dinheiro a partir da empresa, apesar de ter iniciado em 2017, ainda segue em tramitação e, com a obtenção da autorização judicial para cumprimentos de mandados de busca e apreensão, os trabalhos passam para uma nova etapa de averiguação.  

Os mandados cumpridos nesta quinta-feira vão permitir que novos elementos possam ser adicionados ao inquérito, após a análise pericial.

O dinheiro apreendido em notas foi todo encaminhado para a Caixa Econômica Federal, que abriu uma conta específica para custodiar a quantia até que haja o julgamento e a definição da destinação do recurso, que pode ser devolvido ou ter a declaração de perda.

Conforme apurado com transportadoras que atuam em Corumbá, algumas empresas têm apresentado valores de frete abaixo do praticado no mercado, e isso dificulta nas operações de transporte.

FRONTEIRA

Entre junho e novembro de 2021, a Polícia Federal em Corumbá desencadeou três operações com foco em combater lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ocultação de patrimônio. Em dois dos casos, as investigações apontam que o recurso pode ter sido originado do tráfico transnacional de drogas.  

Em 24 de junho, na Operação Camarim, policiais federais cumpriram mandados de busca e apreensão contra pequenas empresas instaladas em Corumbá que apresentavam movimentação financeira acima do normal. 

Além disso, os proprietários já tinham ficha criminal ligada ao tráfico de drogas. A outra ação foi a Washer, realizada contra empresários donos de uma transportadora.

Durante fiscalização de rotina na faixa de fronteira entre Brasil e Bolívia, a Polícia Federal identificou em casos separados dois homens que não souberam explicar como estavam transportando mais de R$ 400 mil em espécie escondidos em bolsas e em um veículo. 

Além de reais, eles tinham dólares, bolivianos e bolívares venezuelanos. Os inquéritos sobre esses recursos apreendidos seguem tramitando na Delegacia da Polícia Federal de Corumbá.

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