Cerca de 25 agentes socioeducativos que atuam na Unidade Educacional de Internação (Unei) Dom Bosco iniciaram nesta quarta-feira (18) um protesto para solicitar que melhorias sejam feitas no local. Os funcionários pedem com urgência a instalação de um gerador, uma guarnição externa ao prédio e também sistema de segurança nos muros da unidade.
De acordo com Sílvio de Souza Guimarães, diretor do Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos da Administração do Estado do Mato Grosso do Sul (Sindsad) que representa a categoria, em dias como hoje, quando falta luz, a unidade fica também sem água, o que dificulta ainda mais o trabalho dos servidores. “Esse é um pedido de socorro, para que as autoridades sejam o trabalho que fazemos aqui, sem condições nenhuma, uma situação precária e de falta de segurança”, declarou.
Por isso, durante esta quarta-feira os agentes atuarão em Operação Padrão, ou seja, apenas a alimentação e o banho de sol será ofertado aos internos. As outras atividades, como escola, cursos e atendimento psicológico serão paralisados enquanto durar o protesto.
Guimarães conta que constantemente o fornecimento de energia no local é interrompido, principalmente em dias chuvosos, quando há maior ocorrência de quedas de raios. Sem energia, a bomba de água também não funciona, assim como as câmeras de segurança da unidade.
“Vivemos uma situação de abandono aqui. Tentamos sempre contorna situações de motim por conta dessas faltas de luz, quando saímos daqui depois de um plantão de 24h estamos mentalmente exaustos”, afirmou o sindicalista.
Por plantão, são cerca de sete agentes atuando e o grupo pede também o aumento do efetivo o mais rápido possível, já que muitos dos colegas estão de férias ou de licença médica. “Antes da fuga tínhamos sete agentes para cuidar de 95 internos, agora estamos com 70, mas mesmo assim é um número alto por agente”.
O representante do sindicato lembra que das 17h até a 1h do dia seguinte é o período mais sensível da unidade, quando apenas os trabalhadores de plantão ficam no local, os servidores administrativos, que cumprem expediente já deixaram o local. Foi justamente nesse horário que, no fim de semana 25 internos da Unei Dom Bosco conseguiram dominar os servidores e saírem pela porta da frente da unidade.
FUGA
Segundo os trabalhadores, naquele dia apenas cinco agentes estavam de plantão. Quatro deles acabaram sendo agredidos por internos de um dos pavilhões. “Eles simularam que um deles estava sendo agredido, então quando abrimos a cela eles vieram para cima da gente com barras de ferro e pedaços de pau”, contou um dos agentes que estava de plantão naquele dia, mas que preferiu não se identificar.
Três agentes conseguiram escapar e se esconderam em um local escuro para fugir dos internos, porém, um dos servidores foi feito de refém pelo grupo de mais de 20 adolescentes. Ele foi agredido e preso em uma cela.
“Eu fui levado porque estava na frente e com a chave, que era o que eles queriam. Eles me agrediram enquanto eu estava reagindo, levei uma barra de ferro na cabeça, mas pediram para que eu parasse porque disseram que não queria me fazer mal. Disseram ‘queremos que você seja nossa segurança em sair daqui’, então eu parei”, contou Carlos Ferreira, 50 anos, que há 19 anos trabalha como agente socioeducativo na Unei.
Segundo ele, depois disso ele foi levado para uma das celas, onde foi algemado com as mãos para trás e trancado. Como as chaves foram levadas, os internos abriram todas as celas e acabaram saindo pela porta da frente da unidade. O quinto agente só não foi agredido pelos internos porque estava do lado de fora da unidade, tentando apaziguar os ânimos dos internos que supostamente agrediam outro rapaz.
“Eles estavam com faca artesanal e ferros, tinha a consciência de que poderiam me ferir fatalmente. Achei que realmente poderia morrer”, lembra o servidor, que apesar dos ferimentos e do fato, não pediu licença para tratamento de saúde por conta da queda salarial que isso causaria.
SOLIDARIEDADE
Ferreira é conhecido pelos internos e também por companheiros de trabalho por retirar dinheiro do próprio bolso para comprar medicamentos para os adolescentes. Conforme o servidor, em algumas ocasiões há falta de remédios básicos no local e ele mesmo já chegou a comprá-los para oferecer aos internos.
“Isso deveria ser fornecido pelo Estado, porém, em alguns plantões de fim de semana eu já trago de casa porque sei que pode faltar e a gente não ter um enfermeiro aqui para atendê-los. Sempre procuro ver o ser humana que está ali e é uma forma de administrar uma situação de caos, porque a pessoa que está aprisionada e com dor ela pode ficar nervosa”, contou.
Para o agente, ficou claro que essa conduta dele em ajudar os internos foi o que impediu que ele fosse ferido com mais gravidade ou até morto. “Houve até respeito no trato comigo”, contou. Ao todo 26 internos participaram da fuga, um deles foi pego ainda durante a tentativa e, segundo os agentes, até hoje mais dois haviam sido encontrados.
Sobre a manifestação, o diretor do sindicato afirmou que uma reunião entre a categoria e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) foi marcada para a sexta-feira (20).
A secretaria, por meio de sua assessoria de imprensa, emitiu nota dizendo que informou que foi “a primeira vez que recebeu a informação, por parte da Superintendência de Medidas Socioeducativas (SAS), que a Unei Dom Bosco não dispunha de gerador de energia”.
“É importante destacar que as providências para que melhorias sejam realizadas, já estão sendo adotadas. A Sejusp também entrou em contato com a direção da Energisa, e a empresa deverá realizar nos próximos dias uma revisão na rede elétrica que abastece a unidade. Um projeto de melhoria será elaborado, com objetivo de evitar descargas elétricas, as quais acabam causando prejuízos. Está previsto para sexta-feira, uma reunião na sede da Sejusp, com os representantes do Sindicato, juntamente com o superintendente da SAS e comandante-geral da Polícia Militar, para tratar da segurança da unidade, uma vez que, o Governo do Estado já autorizou a convocação de policiais da reserva, que deverão ser designados para atuarem na unidade”, diz a nota.

