19 de outubro de 2026

Delegado denunciado pelo Gaeco foi gravado liberando desvio de droga apreendida em MS

Acusação aponta que policiais recebiam propina e repassavam cargas a traficantes; delegado também é suspeito de ocultar patrimônio
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) apresentou à Justiça denúncia contra o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa — afastado do cargo após a prisão — e outros 22 investigados por suposta participação em uma organização criminosa que desviava drogas apreendidas em operações policiais para devolvê-las ao mercado ilegal.

Conforme as investigações, Hoffman ocupava posição de comando no esquema e utilizava a estrutura da Polícia Civil para viabilizar as atividades criminosas.

A denúncia, protocolada na Justiça no dia 9 de outubro, atribui ao delegado e a outros policiais crimes relacionados à organização criminosa, ao tráfico de drogas, à corrupção e à lavagem de dinheiro, além de apontar suspeitas de interferência em investigação criminal.

No documento, o Gaeco pede a condenação dos denunciados e indenização no valor de R$ 10 milhões a título de danos morais coletivos.

Como eram feitos os desvios

À época de parte dos episódios investigados, Hoffman chefiava a Denar, unidade responsável pelo combate ao tráfico de drogas em Mato Grosso do Sul.

Conforme a acusação, o esquema funcionava de duas maneiras: policiais deixavam de registrar oficialmente parte dos entorpecentes efetivamente apreendidos ou retiravam drogas diretamente do depósito da delegacia. Os produtos eram, então, repassados a traficantes ligados ao grupo, que cuidavam da comercialização.

O documento aponta o traficante Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, como responsável pela articulação entre os agentes públicos e os integrantes do tráfico. Ele forneceria informações sobre carregamentos que seriam interceptados, negociaria a quantidade de droga desviada e coordenaria a venda dos entorpecentes.

O Gaeco sustenta que Hoffman não apenas tinha conhecimento do esquema, mas também exercia papel central na organização.

Carga de cocaína é um dos principais episódios

Um dos episódios destacados na denúncia envolve uma apreensão realizada em 21 de maio de 2024, em , na fronteira com o Paraguai. Na ocasião, uma equipe da Denar chefiada por Hoffman registrou oficialmente a apreensão de 643 quilos de cocaína, carga avaliada em aproximadamente R$ 15 milhões.

Segundo informações reunidas pelo Gaeco, entretanto, a carga original teria chegado a cerca de uma tonelada. A suspeita é de que aproximadamente 400 quilos tenham sido desviados antes de serem contabilizados oficialmente.

A investigação também aponta movimentações financeiras posteriores à apreensão, envolvendo pessoas identificadas como integrantes do grupo responsável por comercializar os entorpecentes. Para os investigadores, essas transações, somadas a outros elementos, reforçam a suspeita de que parte da droga tenha sido desviada.

Áudios apontam negociação de drogas desviadas

A denúncia também apresenta conversas atribuídas a integrantes do grupo que, segundo o Gaeco, demonstrariam a negociação de entorpecentes desviados de operações policiais.

Em um dos casos citados no documento, relacionado à apreensão de 793 quilos de maconha realizada pela Denar em maio de 2024, interlocutores discutem a quantidade de droga que seria repassada aos traficantes.

O documento cita uma conversa na qual Lucas afirma que o combinado com um policial identificado como Douglas Tobias previa o desvio de 20% dos entorpecentes apreendidos.

Para o Gaeco, as conversas indicam que havia uma dinâmica organizada de fornecimento de drogas, com negociação de percentuais e participação de agentes públicos.

A denúncia também menciona conversas nas quais Hoffman seria tratado pelo apelido de “Careca”. A acusação interpreta as referências como indícios de que o delegado ocupava posição de superioridade hierárquica no grupo e participava das decisões relacionadas às operações e ao desvio das cargas.

Construção de mansão chamou a atenção

Outro eixo da acusação envolve a evolução patrimonial do delegado e a construção de uma mansão em condomínio fechado de alto padrão em Campo Grande.

Mansão estava sendo construída no Alphaville. (Reprodução, Documento Gaeco)

Segundo a denúncia, dados fiscais indicavam que Hoffman declarou patrimônio de R$ 100 mil no fim de 2023. Na declaração referente ao ano-calendário de 2025, apresentada em 2026, o patrimônio informado passou para R$ 1,2 milhão.

O Ministério Público também destaca gastos superiores a R$ 196 mil com eletrodomésticos em 2025, incluindo produtos de alto padrão, e aponta que os valores seriam incompatíveis com os rendimentos lícitos do delegado.

A acusação menciona ainda um empréstimo de R$ 750 mil declarado por Hoffman e sustenta haver indícios de que a operação teria sido simulada para justificar parte do aumento patrimonial. Para o Gaeco, esses elementos podem indicar a utilização de negócios e transações financeiras para ocultar recursos provenientes das atividades criminosas investigadas.

Além de Hoffman, a denúncia apresentada à Justiça inclui outros 22 acusados, entre policiais civis, um policial penal e pessoas apontadas como integrantes da rede de tráfico ou responsáveis pela movimentação financeira dos recursos. Dois policiais militares também são mencionados na investigação, mas o Ministério Público informa que apresentará a ação contra eles perante a Justiça Militar.

O documento descreve diferentes funções dentro do grupo, desde a obtenção de informações sobre cargas de drogas até o desvio dos entorpecentes, a comercialização e a movimentação de dinheiro.

A Operação Infiltrados foi deflagrada pelo Gaeco em 24 de setembro de 2026, com cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão. As investigações tiveram origem em elementos encontrados durante as operações Traquetos e Blindspot.

A denúncia representa a acusação formal do Ministério Público e será analisada pelo juízo quanto ao possível recebimento das acusações. Caso seja aceita, a ação terá continuidade, com abertura de prazos para as defesas.

A defesa do delegado Hoffman, feita pelo advogado José Roberto Rosa, afirma que as provas apresentadas serão questionadas durante a instrução processual. Segundo o advogado, a análise dos elementos em seu contexto integral deve demonstrar que o delegado não participou dos ilícitos investigados.

“Infelizmente, há indicações de que pessoas que agiam sob o comando do delegado teriam, de alguma forma, agido contra a lei, mas não há indicação direta de participação dele [Hoffman], a não ser recortes com indicações e suposições de que ele teria aderido a essa conduta”, afirmou Rosa.

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