14 de outubro de 2026

MS se prepara para super El Niño e mobiliza força-tarefa contra eventos extremo

Entre outubro e dezembro, Mato Grosso do Sul pode enfrentar o período mais crítico do fenômeno

A possibilidade de Mato Grosso do Sul enfrentar um super El Niño nos próximos meses deixou de ser apenas um alerta meteorológico e passou a orientar o planejamento estratégico do Estado. Diante da previsão de que o fenômeno poderá atingir alta intensidade até o início de 2027, órgãos públicos, concessionárias de energia, especialistas, Forças Armadas e instituições de pesquisa reforçaram nesta terça-feira (4), em Campo Grande, uma força-tarefa para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos sobre a população e os serviços essenciais.

Coordenada pela Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos (AGEMS), a quinta reunião da chamada Sala de Guerra consolidou um novo modelo de gestão baseado na integração de informações, compartilhamento de dados e planejamento preventivo. A proposta é simples, mas estratégica: agir antes que as tempestades, as secas ou as ondas de calor provoquem prejuízos à infraestrutura, ao abastecimento, à economia e à vida das pessoas.

“O clima extremo deixou de ser exceção. Precisamos transformar informação em capacidade de resposta”, resumiu o diretor-presidente da AGEMS, Carlos Alberto de Assis. Segundo ele, a Sala de Guerra foi criada justamente para reunir diferentes instituições em torno de um objetivo comum: proteger a população por meio da prevenção.

Fenômeno ganha força e preocupa especialistas

O principal alerta do encontro veio da meteorologista Ana Paula Paes, especialista em Ciências Atmosféricas. Ela apresentou os dados mais recentes dos modelos climáticos internacionais, que apontam 97% de probabilidade de permanência do El Niño até o início de 2027 e 81% de chance de evolução para um evento considerado muito forte, o chamado super El Niño.

Caso o cenário se confirme, os efeitos mais intensos em Mato Grosso do Sul devem ocorrer entre outubro e dezembro, período em que são esperadas chuvas concentradas em poucos dias, tempestades severas, maior incidência de raios e temperaturas acima da média.

Embora o fenômeno não possa ser evitado, a especialista ressaltou que seus impactos podem ser reduzidos quando há planejamento antecipado.

“Não podemos controlar o El Niño, mas podemos controlar como estaremos preparados para seus impactos. Hoje a tecnologia permite antecipar cenários com semanas e até meses de antecedência”, destacou.

Energia, rodovias, agricultura e cidades entram no radar

Os impactos potenciais vão muito além da previsão do tempo. A irregularidade das chuvas pode comprometer a produção agrícola e reduzir a disponibilidade de água. Tempestades podem provocar apagões, enquanto enchentes e estiagens têm potencial para interromper rodovias, ferrovias e até a navegação.

Por isso, concessionárias de energia como Energisa e Neoenergia Elektro apresentaram planos de contingência voltados à manutenção da rede elétrica, monitoramento de queimadas e resposta rápida em situações críticas.

Na área ambiental, Semadesc e Imasul detalharam os Planos de Ação Climática elaborados para 30 municípios considerados mais vulneráveis, especialmente regiões sujeitas ao estresse hídrico ou à expansão industrial, incluindo áreas do Pantanal.

Defesa Civil quer mapa completo dos riscos

Um dos encaminhamentos considerados prioritários partiu da Defesa Civil Estadual. O coordenador-geral, coronel Hugo Djan Leite, defendeu que cada instituição apresente seus planos de contingência na próxima reunião da Sala de Guerra.

A proposta prevê um diagnóstico detalhado das estruturas críticas, dos serviços essenciais e das populações mais vulneráveis, definindo previamente quem fará o quê em uma eventual situação de emergência.

A ideia é reduzir o tempo de resposta e evitar sobreposição de ações quando ocorrerem eventos extremos.

Tecnologia amplia capacidade de monitoramento

O planejamento também passa pelo uso de tecnologia de ponta. O Sistema de Vigilância de Fronteira do Comando Militar do Oeste (CMO), por exemplo, já fornece dados utilizados no monitoramento ambiental do Instituto Homem Pantaneiro e poderá atender outras instituições.

Universidades, empresas do setor florestal e iniciativas privadas também integram a rede de monitoramento, compartilhando informações sobre incêndios, condições climáticas e áreas de risco.

Na área social, a Secretaria Estadual de Saúde apresentou programas voltados ao apoio aos municípios durante desastres, enquanto a Assistência Social trabalha na atualização dos cadastros dos 134 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), permitindo atendimento mais rápido às famílias atingidas.

Cidades mais preparadas e menos quentes

Ao final da reunião, as instituições definiram uma série de medidas que passam a orientar os próximos meses, entre elas a criação de canais permanentes de comunicação, compartilhamento contínuo de dados meteorológicos, revisão dos planos de contingência, identificação das estruturas mais vulneráveis e alinhamento das responsabilidades de cada órgão.

Outro encaminhamento considerado estratégico foi a elaboração de ações voltadas ao resfriamento das cidades, reduzindo os efeitos das ilhas de calor urbano e aumentando a resiliência dos municípios diante das mudanças climáticas.

Mais do que discutir previsões, a Sala de Guerra sinaliza uma mudança de postura do poder público: diante da crescente frequência de eventos extremos, o desafio deixa de ser apenas reagir às emergências e passa a ser preparar o Estado para enfrentá-las antes que elas aconteçam. Fonte: Campo Grande News

 

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