11 de outubro de 2026

Idosa entrou com dedo infeccionado na Santa Casa e morreu sem dentes

Familiares cobram esclarecimentos; Defensoria Pública analisa possível negligência médica no hospital

Familiares de Marli Andrade, de 66 anos, aguardam respostas da Santa Casa de Campo Grande sobre o atendimento prestado à idosa, que morreu após quase dois meses de internações. A família questiona a demora para a amputação de um dedo do pé infeccionado, a evolução do quadro de saúde e a retirada de alguns dentes da paciente sem, segundo os parentes, autorização ou comunicação prévia. O caso passou a ser acompanhado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, que analisa uma possível negligência médica.

A Defensoria aguarda alguns documentos solicitados à Santa Casa, entre eles a justificativa terapêutica para a extração dos dentes e informações sobre eventual consentimento da família para o procedimento. Após analisar a documentação, o órgão avaliará quais medidas poderão ser adotadas.

“Segunda-feira termina o prazo da Santa Casa, com a resposta ou sem, vamos ver qual é o caminho jurídico para essa situação. Se eles mandarem uma resposta, será verificada e entendida a pertinência terapêutica, mas se não, vamos analisar que medida judicial pode ser tomada para o caso”, relatou Eni Diniz, coordenadora do Núcleo de Saúde da defensoria.

Segundo a filha, Marineide Andrade, de 45 anos, a mãe percebeu, no fim de fevereiro, um ferimento na ponta do dedão do pé, mas não soube dizer o que havia provocado a lesão. Cerca de seis dias depois, o dedo escureceu e passou a exalar forte odor, o que levou Marli a procurar atendimento médico em Paranaíba, onde morava.

O ortopedista que a atendeu recomendou que ela buscasse atendimento vascular com urgência e a encaminhou para Campo Grande ou Três Lagoas. Marli deu entrada na Santa Casa em 1º de março, mas, conforme a família, a amputação do dedão só ocorreu dez dias depois, após insistentes cobranças por atendimento.

“Eu fiquei ligando no núcleo, reclamando que não ia médico lá ver para dar uma decisão, se ia tirar o dedo logo porque podia dar uma infecção”, relata Marineide.

A filha conta que a mãe passou por um cateterismo e pela amputação do dedo, mas recebeu alta no dia seguinte. Mesmo afirmando que continuava passando mal, diz que não houve uma nova avaliação clínica. Por ser diabética, Marineide questionou uma enfermeira sobre a necessidade de novos exames, mas recebeu a resposta de que isso não seria feito “porque senão vocês não vão embora”.

Poucos dias depois, Marli voltou a ser internada na Santa Casa. Segundo a família, ela apresentava fraqueza intensa e a infecção havia avançado novamente no pé, comprometendo outras partes do corpo e órgãos, incluindo os rins.

“Eu entrei no quarto e vi minha mãe entubada. O pé continuava com a infecção, tomando conta, e eles não tiravam. Meu pai brigava para fazerem a amputação, mas diziam que estavam esperando vaga, enquanto o quarto já tinha mau cheiro”, afirma a filha.

Durante a visita, Marineide percebeu que a mãe estava com a boca sangrando e descobriu que todos os dentes haviam sido extraídos. Ela afirma que questionou enfermeiros e médicos sobre o procedimento, mas não recebeu explicações.

A defensora Eni Diniz, informou que conheceu Marli durante uma visita realizada à Santa Casa, em 12 de março, para ouvir pacientes que reclamavam da demora no atendimento.

“Dona Marli havia dado entrada no hospital no dia 1º de março, vinda de Paranaíba, e relatou que ficou muito tempo sem atenção e sem receber visita médica”, disse Eni.

Diante dos relatos da paciente e, posteriormente, do agravamento do quadro clínico informado pela família, a Defensoria passou a acompanhar o caso e solicitou o prontuário médico. Após a morte da paciente, também requisitou esclarecimentos sobre a retirada dos dentes e o consentimento da família sobre o procedimento.

Depois da extração dentária, Marli ainda teve a perna amputada. Segundo Marineide, o hospital informou que a infecção estava controlada e autorizou a transferência para Paranaíba, onde ela permaneceu internada até 27 de abril. Recebeu alta no dia seguinte e morreu em casa, em 29 de abril.

A certidão de óbito aponta como causas da morte falência múltipla dos órgãos, longo período acamada e diabetes mellitus tipo II. A filha também afirma que a mãe desenvolveu feridas nas costas e no couro cabeludo durante a internação na Santa Casa, tratadas apenas após a transferência para Paranaíba.

Em nota, a Santa Casa informou que Marli apresentava uma condição bucal bastante comprometida e que a equipe médica manteve diálogo constante com a família, que, segundo o hospital, tinha conhecimento da situação clínica. A instituição também afirmou que a paciente era portadora de diabetes, fator que agravava seu estado de saúde, e sustentou que todas as condutas seguiram os protocolos médicos.

A família, entretanto, afirma que ainda busca respostas sobre o atendimento recebido. “A diabetes era controlada. Você via ela toda alegre, cheia de planos, dando risada, conversando com todo mundo. De uma hora para outra, tudo mudou”, lamenta Marineide.

Fonte: Campo Grande News

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