25 de setembro de 2026

CPI expõe MS na rota da cocaína e reforça fronteira como engrenagem nacional

Relatório da CPI detalha avanço de facções, infiltração econômica e pede indiciamento de ministros do STF

O relatório final da CPI do Crime Organizado, apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), consolida o diagnóstico de que o crime no Brasil opera a partir das fronteiras, especialmente no eixo Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná, e se estrutura como um sistema logístico e financeiro integrado que conecta produção, circulação e lavagem de recursos ilícitos. A investigação aponta que essas regiões se tornaram portas de entrada consolidadas de drogas e armas, com destaque para a faixa sul-mato-grossense na divisa com Paraguai e Bolívia, hoje dominada por rotas operadas por facções como o PCC e o Comando Vermelho.

O avanço dessas organizações é confirmado pelas investigações. Segundo o relatório, o país já contabiliza ao menos 90 grupos criminosos em atividade, dois deles, PCC e Comando Vermelho, com presença nacional e transnacional em praticamente todo o território. Esse poder se traduz em capilaridade territorial e influência direta sobre a vida de milhões de brasileiros: a CPI estima que 28,5 milhões de pessoas vivam em áreas sob presença do crime organizado e que cerca de um quarto do território nacional esteja, de alguma forma, submetido a formas de governança criminosa.

Eixo do sistema

No caso do Mato Grosso do Sul, a CPI reforça que o estado deixou de ser apenas corredor de passagem para se consolidar como elo estratégico entre a produção andina de cocaína e os centros logísticos do Sudeste. A fronteira seca, a multiplicidade de rotas e a presença desigual do Estado criaram um ambiente propício para a atuação coordenada das facções, que utilizam desde pistas clandestinas até corredores rodoviários e estruturas rurais para garantir o fluxo contínuo de mercadorias ilícitas.

O relatório detalha que essa engrenagem funciona de forma empresarial. Facções como o PCC estruturaram uma cadeia fragmentada, na qual diferentes células operam etapas específicas nas áreas de transporte, armazenamento, distribuição e exportação, sempre reduzindo riscos e aumentando a eficiência. Essa lógica se apoia justamente nas características geográficas do Centro-Oeste e do Sul, onde relevo plano, grandes propriedades e infraestrutura logística favorecem operações de larga escala.

A partir dessas rotas, a droga segue para portos e aeroportos, com destaque para o Porto de Santos, consolidando um corredor internacional que liga a produção nos Andes aos mercados consumidores e ao exterior. A CPI aponta que a expansão dessas rotas para estados como Mato Grosso do Sul, Paraná e Mato Grosso é resultado da adaptação estratégica das organizações criminosas diante da pressão policial em outras regiões.

“Andar de cima”

Se a fronteira representa o ponto de entrada, o relatório mostra que o crime organizado já avançou também sobre o que chama de “andar de cima” da economia. A CPI identifica uma convergência entre a criminalidade violenta e estruturas financeiras sofisticadas, com infiltração em setores como mercado imobiliário, combustíveis, ouro, bebidas e serviços financeiros. O uso de fintechs, criptomoedas e fundos de investimento aparecem como mecanismo central para ocultação e circulação de recursos ilícitos.

O escândalo do Banco Master é tratado como exemplo emblemático dessa engrenagem. O relatório aponta indícios de movimentações bilionárias suspeitas e mecanismos complexos de lavagem de dinheiro, evidenciando a conexão entre o sistema financeiro e estruturas criminosas. A própria CPI reconhece, no entanto, que não teve tempo e meios para aprofundar todas as frentes de investigação, indicando que parte desse circuito ainda permanece parcialmente mapeada.

R$ 40 milhões em cocaína que sairam de Corumbá e foram apreendidos em Minas Gerais no mês passado (Foto: Dovilgação)

Indiciamentos e tensão institucional

É nesse cenário que o documento também ganha contornos políticos inéditos. O relatório pede o indiciamento dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade. Segundo o relator, decisões judiciais teriam limitado o alcance das investigações, suspendendo medidas aprovadas pela comissão, restringindo acesso a dados e, em alguns casos, inviabilizando diligências consideradas essenciais.

A CPI sustenta que essas interferências comprometeram a capacidade investigativa e impediram o aprofundamento de apurações sobre conexões entre o crime organizado e estruturas institucionais. Ainda assim, o relatório afirma ter conseguido estabelecer um diagnóstico consistente do fenômeno, apontando falhas estruturais no combate às organizações criminosas e propondo um pacote de medidas legislativas e institucionais.

Entre as propostas estão o fortalecimento de mecanismos de inteligência, maior integração entre órgãos de segurança, ampliação de instrumentos de bloqueio de ativos e aumento da transparência sobre beneficiários finais de recursos financeiros. O documento também sugere a criação de um Ministério da Segurança Pública e o reforço orçamentário de instituições como Polícia Federal, Receita Federal e órgãos de inteligência.

O relatório de Vieira sustenta que o crime organizado deixou de ser um problema localizado para se tornar uma questão de soberania nacional, mas não toma posição sobre a pressão da extrema direita em apoio a uma possível classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas pelo governo americano. Apenas reconhece que o tema está na pauta. O senador reforça que a fronteira é ponto de partida dessa engrenagem, mas seus efeitos se estendem por toda a estrutura econômica e institucional do país. Ao consolidar essa leitura, o relatório oferece não apenas um retrato das rotas e dos atores do crime, mas um alerta sobre a complexidade de um sistema que hoje conecta, de forma orgânica, territórios dominados por facções e circuitos financeiros sofisticados. Fonte: Campo Grande News

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