19 de janeiro de 2026

Separação é gatilho para feminicídio, mesmo sem histórico violento, diz delegada

Na rotina de casos, experiência mostra que mulher tem de se preparar para ter segurança ao decidir romper

A separação, na maioria das vezes, se torna o ponto de ruptura fatal em relações dominadas por abuso. Muitas mulheres sequer têm histórico registrado de violência doméstica, tornando ainda mais difícil a prevenção. Exemplo recente é o caso de Ângela Nayhara Guimarães Gugel, de 52 anos, que foi assassinada no dia 8 de dezembro de 2025, no Bairro Taveiropólis, em Campo Grande. Ela foi a 38ª vítima de feminicídio no Estado este ano.

Ângela estava casada há 30 anos com Leonir Gugel, seu assassino, e teria solicitado a separação na noite anterior ao crime. Na manhã do dia 8, após uma discussão, Leonir a matou com um canivete e uma faca de cozinha, antes de tentar se suicidar. O caso evidencia a vulnerabilidade das mulheres no momento em que decidem terminar um relacionamento abusivo.

A delegada adjunta da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), Analu Ferraz, diz que o caso de Ângela é um exemplo claro de como a separação pode se tornar o gatilho para um feminicídio. “Não havia um histórico formal de violência doméstica, mas a discussão sobre a separação gerou uma reação extremamente violenta do agressor”, explicou a delegada. “O agressor, ao perceber que estava perdendo o controle sobre a vítima, agiu de forma desesperada, sem pensar nas consequências”.

Em 2025, Mato Grosso do Sul já registrou 39 feminicídios até o dia 17 de dezembro, superando as 35 vítimas do ano anterior, 2024. Esse aumento também reflete o crescente número de casos de violência doméstica no Estado: 22.470 ocorrências registradas em 2025, comparadas a 22.993 em todo o ano de 2024. Esses números são alarmantes, pois indicam que, embora os registros de violência doméstica estejam aumentando, muitas vítimas continuam a ser assassinadas antes que possam buscar ajuda.

Mulher segurando cartaz “MS sangra, MS grita, chega de mulher ter a vida interrompida, durante manisfestação (Foto: Raíssa Rojas)

Separação: momento de alto risco para as mulheres – A separação é, sem dúvida, um dos momentos mais perigosos para a mulher em um relacionamento abusivo. “A vítima, ao decidir romper com o agressor, está atravessando o período mais arriscado de sua vida”, afirma a delegada Analu Ferraz.

“O agressor, muitas vezes, vê a separação como uma ameaça ao seu controle, e é nesse momento que se torna mais letal. Ele acredita que, ao perder o poder sobre a mulher, sua masculinidade e honra estão sendo desafiadas”.

Analuz destaca que, apesar de existirem protocolos de segurança pública e mecanismos legais como a ficha do agressor e o formulário nacional de risco, o grande desafio continua sendo a limitação operacional do Estado.

“Embora o sistema possua as ferramentas para avaliar o risco, é praticamente impossível fazer uma vigilância constante sobre cada mulher que decide romper com o agressor. Isso significa que, quando a mulher pede a separação, o risco imediato de feminicídio se torna uma realidade difícil de controlar”, alerta a delegada.

Violência psicológica – O ciclo de violência muitas vezes começa de forma insidiosa, com agressões psicológicas que são mais difíceis de identificar. “Muitas vezes, o agressor não agredirá fisicamente, mas vai destruindo psicologicamente a mulher ao longo do tempo, através de humilhações, isolamento e controle excessivo”, explica Analu Ferraz. “Essa violência invisível cria um ambiente propício para a violência física e, eventualmente, para o feminicídio. A mulher, muitas vezes, não se reconhece como vítima, o que dificulta ainda mais a intervenção”.

A falha do sistema em identificar essa violência psicológica é um dos maiores obstáculos para prevenir tragédias como o feminicídio. De acordo com Ferraz, a ausência de boletins de ocorrência formais piora a situação: “Quando não há registro da violência, a resposta do sistema de justiça tende a ser mais lenta, o que pode significar que a mulher não tenha tempo de ser protegida antes do ato”.

O desafio do Estado e as medidas protetivas – Muitas mulheres não sabem que podem solicitar medidas protetivas já nas primeiras 24 horas após uma situação de violência, seja física ou psicológica. Analu destaca a importância dessas medidas como uma ferramenta preventiva vital.

“A medida protetiva não depende de um crime cometido, mas sim do risco identificado pela mulher. E é fundamental que ela saiba que pode pedir ajuda de forma imediata”.

Em Mato Grosso do Sul, a solicitação da medida protetiva pode ser feita de forma online, no site do Tribunal de Justiça, ou diretamente na delegacia, sem a necessidade de um histórico de violência registrado. Ferraz salienta que o sistema de justiça tem se mostrado mais eficiente na resposta rápida, mas ainda falta conscientização sobre o acesso a esses direitos.

A crescente violência contra as mulheres em Mato Grosso do Sul exige uma resposta mais eficaz e integrada. Embora existam mecanismos legais e operacionais, a falta de consciência por parte das vítimas e a falha no reconhecimento dos sinais de abuso psicológico e emocional continuam a resultar em mortes evitáveis.

Como bem afirmou a delegada Analu Ferraz, “a separação pode ser o gatilho para o feminicídio, e a sociedade precisa entender que o apoio e a proteção devem ser garantidos desde o primeiro sinal de risco”.

Ajuda – Se você sofre ou presencia violência doméstica, denuncie. A Central 180 funciona 24 horas, gratuitamente, e a ligação pode ser anônima. Em caso de emergência, acione a Polícia Militar pelo número 190. Violência contra mulheres, crianças, idosos ou qualquer pessoa não pode ser silenciosa. Fonte: Campo Grande News

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