Se você mora em Campo Grande, provavelmente já ouviu de alguém a máxima “campo-grandense não sabe dirigir”. Seja por motoristas, ciclistas ou pedestres, é consenso que o trânsito da Capital é problemático e que deve ser melhorado.
No entanto, esse descontentamento no volante, aliado a falta de controle emocional, pode resultar em brigas, agressões e até tragédias no trânsito.
A violência no trânsito é provocada, muitas vezes, por ações de intolerância de uma das partes, ou de ambas. Brigas que começam por pouca coisa acabam virando discussões sérias, que terminam em agressões e até em morte. Investir na direção defensiva, calma e a educação no trânsito desde cedo, tanto dentro quanto fora do carro, é apontado como a saída para evitar esse tipo de problema.
É o que destaca o psicólogo de trânsito da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), Renan Soares Junior.
“É muito importante que as pessoas utilizem o comportamento defensivo, ou seja, estejam sempre na via com a sua tarefa prioritária, que é somente estar no trânsito. Então, não deve fazer outras coisas como comer, beber, usar o celular. Utilize a velocidade adequada, distância de seguimento, consiga se relacionar de maneira harmoniosa para que a gente tenha um comportamento que a gente chama de preventivo”, recomenda Junior.
Me envolvi em uma briga no trânsito, e agora?
Caso você se envolva em uma colisão de trânsito e a outra pessoa esteja em desequilíbrio emocional e procure o desentendimento, o especialista enfatiza que não reagir ou provocar é a melhor decisão possível.
“Hoje a gente tem muitas pessoas que possuem armas de fogo ou que muitas vezes vão reagir de maneira mais agressiva por uma situação de trânsito. Então, é importante que as pessoas não reajam. Tenham uma maneira preventiva de estar no trânsito para evitar que esses conflitos aconteçam, e caso haja um conflito, administrá-lo para que ele não escale para uma situação de um conflito maior ou até tragédias”, comenta.
‘O trânsito é um termômetro social’
Renan Soares Junior destaca ainda que é fundamental não levar o estresse do dia a dia para dentro do carro. Ele explica que a maioria dos conflitos no trânsito representa o colapso emocional de uma das partes ou das duas envolvidas.
“Tanto o que acontece no trânsito influencia as pessoas nos ambientes fora quanto o inverso também é verdadeiro. E os conflitos muita das vezes serão justamente a gota d’água de alguém que já está em uma situação limite e aí vem o agravante dessas situações de explosão e desentendimento que nós temos tido. Isso é perigoso e faz as pessoas muitas vezes chegarem a vias de fato”, conta.
O psicólogo também explica o sentimento de “blindagem” que alguns motoristas sentem ao entrar em um veículo. Segundo ele, este é um problema perigoso e estrutural da sociedade, similar ao que acontece em ataques de ódio nas redes sociais.
“O motorista muitas vezes se sente descolado do tecido social ao entrar no carro. É um comportamento muito similar ao que a gente vê nas mídias sociais, por exemplo. Onde a pessoa se sente protegida e aí fala coisas agressivas que ela não falaria se estivesse diante da pessoa”, explica.
“A gente tem problemas de violência nas escolas, entre vizinhos, violência infrafamiliar e isso também acaba se expressando no trânsito. Por isso que a gente observa que o trânsito é um termômetro social dessa violência que está espalhada por vários ambientes da sociedade”, complementa Renan.

