8 de fevereiro de 2026

Bloqueio na Bolívia ameaça comércio de mais de R$ 1,1 bilhão

A fronteira da Bolívia com o Brasil foi fechada nas primeiras horas desta segunda-feira, diante de muita tensão, e o movimento segue sendo realizado por tempo indeterminado, conforme os organizadores. 

O bloqueio foi organizado pelos comitês cívicos, e a intenção dos grupos é gerar impacto direto na economia para forçar o governo de Luís Arce (MAS) a tomar medidas que devem rever a Lei 1386.  

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O fechamento não é uma novidade, e há menos de um mês isso já ocorreu, porém a irredutibilidade dos manifestantes em manter a situação por tempo indefinido é que gera riscos para o setor econômico, tanto na exportação como na importação. 

Conforme dados de exportação do governo boliviano, neste ano já há uma redução em pelo menos três dos principais produtos: o gás natural, borato (mineral usado pela indústria de cerâmica e de higiene pessoal) e ureia granulada (fertilizante). 

Esses dois últimos dependem diretamente do transporte rodoviário para cruzarem a fronteira e são diretamente impactados pelo bloqueio, caso ele perdure.

Conforme publicado na edição de ontem do Correio do Estado, o País já enfrenta aumento dos custos da produção agrícola por falta de fertilizantes. Problema esse que pode se agravar com o fechamento da fronteira com a Bolívia.

Só em 2020, em termos de exportação, o comércio brasileiro sul-mato-grossense com a Bolívia movimentou US$ 20.025.526,00 com a comercialização de 10 principais itens (ou R$ 1,108 bilhão). 

Em um ranking de seis pautas prioritárias (veja gráfico), esse comércio representa US$ 14,9 milhões que podem ficar ameaçados neste período de retomada pós-pandemia da Covid-19.  

CARGAS

O trânsito de cargas entre os dois países está direcionado atualmente apenas para a utilização do modal rodoviário, e os veículos precisam, obrigatoriamente, passar no controle fronteiriço que está fechado. 

Desde a segunda quinzena de setembro, a rota fluvial está parada e sem previsão de poder ser retomada por conta do nível do Rio Paraguai e do Canal Tamengo.

Essa condição restritiva passou a gerar, desde outubro, congestionamento de carretas do lado boliviano. 

A espera para desembaraço da importação brasileira chega a demorar 24 horas por conta do volume de veículos que dobrou. A média de caminhões na região de fronteira em períodos normais estava em 800 veículos diários.

É nesse cenário econômico conturbado que o bloqueio da fronteira, também chamado de “paro”, acontece neste mês. 

“O paro é uma medida extrema e todo extremo é negativo. Especialmente em uma época de recessão, como agora. Não temos a navegação e ainda há a pandemia. Pela hidrovia, esperávamos movimentar 2,1 milhões de toneladas e com muito esforço chegaremos a 500 mil toneladas [de produtos exportados]”, analisa Bismark Rosales, gerente-geral de Puerto Jennefer, complexo portuário em Puerto Quijarro e um dos principais do país vizinho para realizar a exportação para o Brasil.

EXPORTAÇÕES

Do lado brasileiro, as exportações também são diretamente atingidas sem a possibilidade de os caminhões atravessarem Corumbá e chegarem em Puerto Quijarro. 

Entre janeiro e outubro deste ano, US$ 18,5 milhões foram exportados para a Bolívia a partir da capital do Pantanal, conforme dados do Ministério da Economia. 

Esse valor já está 12% inferior ao que foi registrado ano passado. Conforme levantamento do Ministério da Economia, na lista de 10 principais produtos exportados para a Bolívia em 2020, todos eles só foram despachados por meio rodoviário.

Quanto mais tempo durar o movimento de fechamento de fronteira, maior o impacto deve ocorrer nessa transação comercial entre os dois países. 

“Não creio que dure mais de cinco dias. O país não tem como aguentar sem o abastecimento e o transporte por muito mais tempo que isso. E agora que o rio está querendo recuperar-se, a imagem do país pode ficar comprometida como não tão confiável para o mercado internacional, por conta da insegurança política”, comenta o empresário Bismark Rosales.

MOVIMENTO

Além do bloqueio em Puerto Quijarro, todo o país enfrenta os mesmos movimentos. 

“Seguimos firmes até que o governo [federal] anule as leis comunistas que nos impuseram”, ressalta Marcelo Moreira Silva, presidente cívico da Província de Gérman Busch, que engloba Puerto Quijarro e Puerto Suárez, e um dos organizadores do paro na fronteira.

“O paro nacional multissetorial indefinido tem o objetivo de exigir a revogação da Lei 1386, que atenta contra a propriedade privada, o trabalho do setor informal e vulnerabiliza as liberdades dos cidadãos, habilitando que a Unidade de Investigações Financeiras faça a persecução e a investigação de qualquer cidadão com a ‘simples suspeita’ [de irregularidades]”, critica a nota do Comitê pro Santa Cruz, que foi emitida em forma de resolução.

“Além disso, abre a possibilidade de que o governo, de maneira arbitrária, mediante a Unidade, intervenha em telefones e as comunicações de qualquer cidadão”, complementou a nota.

Para o governo boliviano, a referida lei permite uma regularização com relação à movimentação financeira e bancária no país.

Em termos regionais, o boliviano representa cerca de 40% do consumidor no comércio corumbaense. Sem ele fazendo compras, o prejuízo diário fica em torno de R$ 300 mil diários, em estimativa da Associação Comercial e Empresarial de Corumbá.

Em 2019, quando houve bloqueio de mais de 15 dias, o prejuízo estimado foi de R$ 5 milhões para o período.

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