MP cumpre mandados de busca e apreensão contra ex-dirigentes da gestão Piffero no Inter

O Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul cumpriu na manhã desta quinta-feira mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ex-dirigentes do Inter na gestão do ex-presidente Vitorio Piffero, nos anos de 2015 e 2016. A investigação apura crimes de apropriação indébita, estelionato, organização criminosa, falsidade documental e lavagem de dinheiro.

Segundo o MP, foram cumpridos 20 mandados em residências e sedes de empresas de Porto AlegreEldorado do Sul e Viamão. Os investigados são o ex-presidente Vitorio Piffero, o ex-vice de Finanças Pedro Affatato, o ex-vice de Administração Alexandre Limeira, o ex-vice de Patrimônio Emídio Marques Ferreira, o ex-vice de futebol Carlos Pellegrini e o ex-vice jurídico Marcelo Domingues de Freitas e Castro. Também são investigados empresários de futebol, além de pessoas vinculadas a empresas de construção civil, de turismo e de contabilidade.

As investigações começaram em 2017, no ano seguinte ao rebaixamento do clube para a Série B. As suspeitas incluem desvios de cerca de R$ 10 milhões para justificar obras que nunca foram realizadas, entre diversas outras irregularidades que atingem também o departamento de futebol. Em outubro passado, o Conselho Deliberativo do Inter aprovou a inelegibilidade de Piffero e mais três ex-dirigentes por 10 anos, além de encaminhar a documentação para a investigação do MP.

MP cumpre mandados de busca e apreensão em residências de ex-dirigentes do Inter — Foto: Marjuliê Martins/MPRS

MP cumpre mandados de busca e apreensão em residências de ex-dirigentes do Inter — Foto: Marjuliê Martins/MPRS

Confira as suspeitas contra os dirigentes:

  • Pedro Affatato, ex-vice de Finanças

Segundo as investigações do MP, a principal fonte de fraudes e desvios contra o clube foi a retirada de valores em espécie da tesouraria pelo vice de finanças Pedro Affatato. Os valores foram alegadamente utilizados para o pagamento de obras para empresas de construção civil e prestação de serviços: os chamados adiantamentos.

Foram cerca de R$ 10 milhões entre fevereiro de 2015 e fevereiro de 2016, retirados diretamente pelo dirigente e depois comprovados por meio de notas fiscais de obras que não foram realizadas, apesar de atestadas pelo ex-vice de Patrimônioi, Emídio Ferreira, ou superfaturadas. Segundo análise técnica realizada pelo MP, de 165 notas analisadas, oriundas de nove empresas, pelo menos 94% revelaram obras não executadas, executadas parcialmente ou com sobrepreço.

Pedro Affatato, ex-vide de Finanças do Inter — Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com

Pedro Affatato, ex-vide de Finanças do Inter — Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com

A investigação aponta que houve depósitos de valores idênticos ou semelhantes para uma empresa do próprio Affatato logo depois da retirada dos valores. Entre as obras não realizadas estão procedimentos no CT de Guaíba. O local é atualmente uma área sem infraestrutura e com vegetação nativa.

Mesmo depois de alterada a forma de pagamento das supostas obras, a partir de fevereiro de 2016, o MP apurou que parte dos valores destinados às prestadoras de serviços de construção civil era posteriormente transferida para empresas relacionadas a Pedro Antonio Affatato e Emídio Marques Ferreira. Affatato também é apontado por receber valores de agência de turismo, no curso da gestão 2015/2016, como contrapartida ao superfaturamento na prestação de serviços de turismo ao Sport Club Internacional.

  • Carlos Pellegrini, ex-vice de futebol

O MP descobriu que negociações e renovações com atletas que normalmente não seriam realizadas, pelo menos nos patamares econômicos constatados, foram efetivadas sob os cuidados de Carlos Pellegrini mediante prévio ou posterior repasse de valores. Logo depois de algumas negociações serem concluídas, os empresários dos atletas efetuavam, como recompensa, repasses financeiros ao dirigente.

MP aponta irregularidades em contratos assinados por Pellegrini — Foto: Tomás Hammes

MP aponta irregularidades em contratos assinados por Pellegrini — Foto: Tomás Hammes

Em outras oportunidades, os empresários adiantavam valores a Pellegrini, para, em seguida, concluir os negócios envolvendo atletas por eles agenciados. Nas duas situações, sempre era o clube que arcava com o prejuízo, ou contratando atletas que jamais seriam contratados nas condições que foram, ou embutindo no preço pago pelo jogador os valores repassados aos dirigentes.

Foram apuradas possíveis irregularidades em contratações/renovações de inúmeros atletas, cujas negociações foram intermediadas, entre outros, pelos empresários investigados.

  • Marcelo Domingues de Freitas e Castro, ex-vide Jurídico

Marcelo Castro exerceu a função de vice-presidente Jurídico entre janeiro e agosto de 2015. Nesse período, as investigações do MP apontam que ele recebeu parte de valores oriundos de acordos trabalhistas firmados com atletas, além de outros negócios relacionados ao clube, por meio de triangulações de depósitos que envolveram diversas empresas utilizadas por ele para possível lavagem de dinheiro. Uma dessas empresas também realizou depósitos para Limeira, Pellegrini e Piffero, alguns antes mesmo de assumirem a gestão.

  • Alexandre Limeira, ex-vice de Administração

Foi apurado que, por intermédio de uma empresa em seu nome, atuou como operador financeiro do grupo, como intermediário de valores posteriormente repassados, desde antes da gestão, para Vitorio Piffero e Carlos Pellegrini, vinculados à atuação de um empresário envolvido, logo no início da gestão, na contratação de um atleta pelo clube. Também foi destinatário de valores provenientes de Marcelo Castro.

MP investiga ex-dirigentes da gestão Piffero — Foto: Diego Guichard

MP investiga ex-dirigentes da gestão Piffero — Foto: Diego Guichard

  • Vitorio Piffero, ex-presidente do Inter

As suspeitas acerca da atuação do ex-presidente dizem respeito a sua condição de gestor principal e de efetiva participação em todos os setores do clube, com pleno domínio gerencial e funcional de todos os fatos praticados pelos demais dirigentes. Para o MP, ele tinha o efetivo domínio dos acontecimentos, especialmente aqueles relacionados aos adiantamentos tomados por Affatato e às negociações de atletas realizadas por Pellegrini.

Em relação, por exemplo, aos adiantamentos efetuados por Pedro Antonio Affatato de cerca de R$ 10 milhões, além do natural conhecimento decorrente de sua função de gestor principal do clube, o então presidente Vitorio Piffero tinha ciência expressa e específica da preocupação do Conselho Fiscal do Inter acerca do assunto, nada fazendo de eficaz em relação a tal prática.

Contrapontos

A reportagem do GloboEsporte.com tenta contato com os ex-dirigentes citados na investigação. Confira abaixo o que eles dizem:

Vitorio Piffero, em entrevista à Rádio Gaúcha
“É lamentável. Me dediquei de corpo e alma ao Inter e, estar sendo tratado desta maneira pelo Inter é um absurdo. Quero que provem qualquer ato da minha gestão que eu tenha praticado e que tenha sido desabonatório. Espero que o MP me chame logo. Porque, se eu for depender apenas da minha defesa no Inter, sei que não tenho a menor chance”.

Alexandre Limeira, ao GloboEsporte.com
“Normal que eu seja investigado porque o Inter encaminhou meu nome aos órgãos vigentes. Não houve nenhuma operação no Ministério Público na minha casa. Não existe citação ao meu nome nos adiantamentos e no futebol. Estou totalmente à disppsição, não vieram aqui em casa. Todo o dirigente é uma pessoa pública. Ele deve explicação ao MP, ao Conselho (Deliberativo), à imprensa, aos torcedores. Estou totalmente à disposição. Da minha parte, são valores irrisórios, perto de outros valores. Eu já expliquei. Tenho as notas. Eu acho que nem falaram”.

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